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Sever do Vouga quer jovens agricultores em terrenos abandonados

Sever do Vouga quer jovens agricultores em terrenos abandonados

Entre as serras de Sever do Vouga, distrito de Aveiro, cultiva-se o mirtilo, um arbusto de popularidade crescente que se espera que acabe com "os terrenos sem gente e a gente sem terra."

A ideia partiu de várias associações de agricultores locais em articulação com a autarquia severense, decidida a rejuvenescer o concelho ao cativar jovens agricultores para a plantação do mirtilo, através da criação de uma "bolsa de terras."

"Este conceito, no fundo, consiste em aproveitar terras que estão abandonadas, dando-lhes um destino para quem tem interesse em explorar a agricultura e torná-la um negócio", disse à Lusa José Martino, engenheiro agrónomo responsável por este canal de entendimento entre potenciais agricultores e proprietários de terrenos abandonados.

O microclima de Sever do Vouga é particularmente propício ao cultivo daquelas bagas silvestres, algo que foi estudado e confirmado "há cerca de 20 anos, quando uma fundação holandesa decidiu, na sequência de um apoio que prestava à companhia leiteira local, fazer experiências com a plantação de mirtilos e outros pequenos frutos", explicou à Lusa o autarca Manuel Soares.

"A agricultura de subsistência, e sobretudo a cultura intensiva de milho, não dava qualquer rendimento aos agricultores", recordou o presidente da Câmara, referindo que "começou a verificar-se que o mirtilo era uma boa fonte de rendimento para as famílias", apesar de acontecer num concelho "sobretudo de minifúndio, ao socalco e em terras de pequena dimensão."

"A verdade é que muita gente começou a viver da cultura do mirtilo", constata Manuel Soares, pelo que participou da fundação da Associação para a Gestão, Inovação e Modernização de Sever do Vouga (AGIM), com técnicos que prestam apoio aos jovens agricultores e àqueles que pretendam fazer a plantação do mirtilo, nas "condições técnicas adequadas" e elegíveis para eventuais candidaturas aos fundos europeus do PRODER.

"Isto começou a ter muito sucesso -- há muitos produtores em Sever do Vouga e em toda a região -- e pensámos que para aqueles jovens agricultores que hoje estão a regressar às terras mas não têm terrenos, seria bom fazer um protocolo com a Fundação Bernardo Barbosa de Quadros [proprietária dos cerca de 45 hectares de terreno disponível] e a AGIM", explicou o presidente da Câmara.

Segundo o engenheiro agrónomo José Martino, "o trabalho da AGIM é recolher os contactos de quem está interessado, mostrar as terras e ajudar a definir os investimentos necessários", de modo a obter "uma plantação de mirtilos bem instalada e que possa ter uma alta produtividade e com alta qualidade, como é o timbre de Sever do Vouga."

José Martino é também subscritor de "uma petição na internet por uma bolsa de terras pública", pelo que considera a experiência de Sever do Vouga "uma espécie de tubo de ensaio" sobre o que entende que deve ser "uma bolsa de terras nacional", que já aguarda uma legislação complementar sobre o seu funcionamento.

O engenheiro agrónomo sublinha que "esta bolsa de terras só funciona enquanto houver terra", que é atribuída "por ordem de prioridade" da chegada das candidaturas e que cessa até que apareçam novos terrenos.

Ainda que cultivado na autoproclamada Capital do Mirtilo, este fruto silvestre azulado "não era conhecido em Portugal até aqueles holandeses aparecerem", considerou o autarca Manuel Soares, pelo que "inicialmente, e ainda até há poucos anos, praticamente todo o fruto era exportado para França, Bélgica e a Holanda."

Só com a realização da Feira do Mirtilo é que o fruto "começou a ser conhecido" em Portugal e de acordo com o edil severense "hoje há já uma grande procura deste pequeno bago, sobretudo pela curiosidade científica de muita gente ligada à medicina, por força de o fruto ser considerado o rei dos antioxidantes", mas também pela "grande variedade de pratos culinários que se fazem com o mirtilo."

O lançamento e a apresentação da bolsa de terras de Sever do Vouga acontecem a 24 de abril na sede da AGIM, perto do centro do concelho, onde será explicado o seu funcionamento e apresentado um programa de negócios para a produção e rentabilidade do mirtilo.

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