Reportagem

O grito do nascimento enquanto se salvam outras vidas

O grito do nascimento enquanto se salvam outras vidas

Hospital de Braga vai começar a testar pais para poderem assistir aos partos. Nos cuidados intensivos vive-se o medo de contágio do vírus.

São 10.01 horas e um choro a plenos pulmões anuncia nova vida no quinto piso do Hospital de Braga. É Maya, 3,790 quilogramas, a primeira filha de Luana Gomes, 35 anos, e olhos emocionados com a "experiência única". O marido há de chegar mais tarde para este ninho de amor. O vírus que provocou uma pandemia obrigou a novas regras, com partos sem assistência paternal, mas esta mãe reconhece: "Há pessoas em situações mais difíceis".

Há, sim. E estão logo ao lado, no serviço de Neonatologia, com recém-nascidos protegidos em incubadoras. Ou descendo um piso no elevador, na Unidade de Cuidados Intensivos Polivalente (UCIP). Ali, a vida celebra-se sempre que um doente infetado com Covid-19 larga os tubos do ventilador e tenta renascer.

Luana diz que demorou "muito tempo" a decidir ser mãe, "por medo". E, ironicamente, foi quando todo o Mundo vive com medo, que Maya decidiu nascer. "Mas foi a melhor decisão", garante a brasileira radicada em Portugal há dois anos, há quatro meses em Braga.

Antes de dar à luz, foi testada ao novo coronavírus. Resultado negativo e uma salva de palmas da equipa da Obstetrícia. "Batemos sempre palmas quando é negativo", atira a enfermeira Rosa Castanheiro, que assume viver "dias diferentes".

Os corações palpitam entre a felicidade dos nascimentos e "a tensão" de chegar alguma mãe contaminada. "Há alguma ansiedade quando fazemos partos em que ainda não temos resultados", confessa a profissional, para logo ressalvar: "Mas ainda só tivemos três casos positivos".

Quase 400 partos

Desde o início da pandemia, já contam 381 partos. Adaptaram-se salas para responder a casos suspeitos, as máscaras são obrigatórias, criou-se uma linha telefónica direta e uma página de Facebook para sossegar as mães. "Andam muito ansiosas", sublinha Isabel Reis, diretora do serviço, que com a equipa faz de tudo para aliviar a dor das mães. O próximo passo será criar um circuito para testar os seus companheiros e estes voltarem a ter permissão para assistir aos partos.

"São muitas emoções à flor da pele", desabafa Ana Sofia Fonseca, mãe de trigémeos, aos cuidados do serviço de Neonatologia. Dá colo a Vitória, enquanto espreita Matilde e Mariana nas incubadoras. Não pode fazer canguru com as filhas, não há toque pele a pele. Não pode estar junto do marido naquela sala. "A principal mudança foi a abolição de práticas de humanização", lamenta a diretora do serviço, Almerinda Barroso Pereira, que estava habituada a uma ala "muito aberta aos pais".

Seres frágeis

Conta, nesta altura, com 10 bebés nos cuidados intensivos e oito nos cuidados intermédios. Enquanto ali se tentam salvar os mais pequenos, frágeis, prematuros que chegam a não ultrapassar 700 gramas, no piso de baixo, a luz irradia numa sala onde se tenta garantir a vida de 11 doentes com Covid-19, na UCIP - há mais 85 em enfermaria. Muitos estão sedados, outros já largaram a máquina da ventilação, outros estão mais confusos do que conscientes. "Onde é que eu estive? O que é que se passou?", questionam alguns. O hospital vai chamá-los, daqui a três ou quatro meses, para verem a unidade onde recuperaram, para perceberem de onde vêm alguns vozes que podem continuar a ouvir, sem perceberem de onde.

Desde março, quando tudo começou, 24 pessoas passaram por ali. Doze já tiveram alta para o internamento. Só duas, até agora, não resistiram. "O pandemónio de Espanha não se verificou aqui", diz, aliviado, o diretor da UCIP, Luís Lencastre que, a um ano da reforma, "não esperava" passar por isto.

Mais picos

Estão numa fase "estável", mas a equipa antevê mais picos. O número de camas na unidade aumentou de 12 para 44. Só enfermeiros destacados, passaram de 35 para 100, acrescenta o enfermeiro Hugo Sousa. Foram recrutados de outros serviços, como Cardiologia, de onde chegou Paulo Ferreira.

São muitos anos de profissão, o trabalho diário cansa, os fatos de proteção pesam no corpo. Lamenta-se o afastamento da família.

A enfermeira-chefe Isabel Souto Silva diz que "perder profissionais para a doença não faz parte dos planos". E, entre conversas, ouve-se ao longe: "Está tudo bem". É a frase de tranquilidade para mais um utente que deixou a ventilação e renasceu.

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