
Tiago André foi raptado a 17 de julho e encontrado a 21 de julho
Tiago André volta todos os anos ao Santuário da Penha, em Guimarães, o lugar onde foi encontrado, três dias depois de ter sido raptado da maternidade do Hospital Senhora da Oliveira, em julho de 2002. Natural de Atei, uma freguesia de Celorico de Basto, a Penha tornou-se a sua segunda casa e os que ali trabalham são parte da família. Tiago fez 20 anos no passado dia 16 e desta vez trouxe a companheira, Joana Arada, com quem planeia casar, "no Santuário, pois claro".
Coincidência ou não, Tiago nasceu no dia de Nossa Senhora do Carmo, em Celorico de Basto. Bebé e mãe foram transferidos logo de seguida para o Hospital de Guimarães, na sequência de complicações no parto. "Aquele menino era tão desejado por mim, pelo pai e pela irmã", lembra a mãe, viúva desde 2017.
Maria Emília ainda estava entre a alegria do sonho realizado e as dores do parto, quando, no dia 17 de julho, ao fim da tarde, "uma mulher, dos seus 25 anos, entrou no meu quarto e começou a falar comigo". A visitante, "cheia de elogios e falinhas mansas", pediu-lhe para pegar no bebé e fugiu com ele. Debilitada, Maria Emília ainda não conseguia levantar-se, gritou por socorro, mas não valeu de nada.
Antes do nascimento de Tiago, passou por três abortos e, por vezes, já não acreditava que voltaria a ser mãe. Nas horas seguintes, a família ficou devastada e o aparato da comunicação social e da polícia tomou conta de Guimarães. Durante três dias, Tiago esteve com a mulher que o levou e que, apesar de tudo, o tratou bem. "Quando o encontramos, estava a dormir, cheirosinho, embrulhadinho num xaile", conta Jorge Lobo, membro da Irmandade da Penha, que segurou o bebé no colo, até as autoridades chegarem, depois de ser encontrado no altar do santuário, no dia 21, às 7.30 horas.
VOLTA TODOS OS ANOS
É por isso que, até hoje, Tiago não tem dúvidas sobre o que fazer no primeiro domingo depois do seu aniversário: vai à Penha, à Procissão de Nossa Senhora do Carmo. Na verdade, o jovem tem ali uma segunda família. "Foi batizado aqui, cerimónia religiosa e boda, com tudo pago", conta Domingos Sousa, outra das pessoas que o encontraram. A peregrinação anual começou por ser feita em família, mas a mãe nunca recuperou do choque daqueles três dias. "Percebemos que era mau para ela e fica em casa", conta o filho.
Tiago já era, nessa altura, um adolescente e passou a vir pelo seu próprio pé. Domingos e Tiago tornaram-se grandes amigos e foram "estrelas" de programas de televisão ao longo dos anos. "Como daquela vez no "Perdidos e Achados", em que eles te filmaram a montar uma cabra lá na aldeia", lembra Domingos, abraçado ao amigo.
No domingo, Tiago veio enganado, uma vez que a Câmara determinou que a procissão não se realizaria, em virtude do estado de contingência, por causa das temperaturas elevadas. "Volto no próximo domingo [amanhã]", promete. "Só falhei um ano e foi porque estava a trabalhar no estrangeiro". "E eu quero que ele case com esta menina", diz Domingos, apontando para Joana, "e o casamento vai ser aqui, na Penha".
A mulher que raptou Tiago durante três dias e o casal que a acompanhava quando o foi deixar no santuário nunca foram encontrados, apesar de terem sido vistos por várias pessoas. O caso foi encerrado em 2004.

