Incêndio

Quercus diz que perigosidade do fogo de Monchique deve-se sobretudo a eucaliptos

Quercus diz que perigosidade do fogo de Monchique deve-se sobretudo a eucaliptos

A Quercus disse esta terça-feira ser "preocupante" a falta de controlo do incêndio na serra de Monchique e defendeu que a sua elevada perigosidade se deve sobretudo ao comportamento do fogo nos eucaliptais.

A associação de defesa do ambiente considera "preocupante a falta de controlo do fogo na Serra de Monchique e áreas envolventes, manifestando-se solidária com os feridos e populações residentes nesta área".

"A perigosidade elevada deste incêndio, em parte deve-se ao acumular de manta morta e ao comportamento do fogo nos povoamentos de eucalipto", com projeções de partículas incandescentes a vários quilómetros, provocando focos secundários que dispersam os meios de combate e reduzem a sua eficácia, especificou a Quercus, em comunicado.

Para os ambientalistas, depois da fase de combate e do apoio às vítimas, "o país e os responsáveis políticos têm de optar pelo melhor modelo de desenvolvimento para o Algarve".

Trata-se de decidir se "querem uma indústria extrativa e transformadora do território, ou [se] apostam num turismo sustentável no interior do Algarve, com paisagens mediterrânicas dominadas pelo sobreiro, medronheiro e outras folhosas autóctones, mais resilientes ao fogo e promotoras de biodiversidade e da conservação do solo, da água e da paisagem", descreve a Quercus.

O incêndio em Monchique começou na sexta-feira pelas 13 horas e estava, esta terça-feira, a ser combatido por mais de 1200 operacionais, cerca de 400 veículos e à volta de 17 meios aéreos. O fogo provocou pelo menos 30 feridos.

A proposta de revisão do Programa Regional de Ordenamento Florestal do Algarve, salienta a Quercus, propunha a manutenção ou redução de 1% da área de eucaliptal na região em 2050, situação que a Quercus considera "muito pouco ambiciosa, ao contrariar a legislação aprovada pela Assembleia da República".

A Quercus entende que esta redução deveria ser no mínimo de 10%, para promover o ordenamento florestal com descontinuidades e povoamentos mais resilientes ao fogo.

Lembra que o Programa Regional de Ordenamento Florestal do Algarve esteve recentemente em consulta pública, mas aguarda publicação, e espera que tenham existido alterações significativas com vista ao ordenamento da floresta e do território.

"O paradigma faz recair no Estado, ou seja, em todos nós, a responsabilidade e a fatura a pagar com estas tragédias, para alguns poucos lucrarem com um negócio que é insustentável para a sociedade", criticam os ambientalistas.

De acordo com uma avaliação estritamente económica, realizada em 2012 por um grupo de 21 personalidades, recorda a Quercus, o país assume um custo anual com os incêndios florestais de mil milhões de euros.

Grande parte da área afetada pelo fogo na Serra de Monchique integra um Sítio de Importância Comunitária da Rede Natura 2000 que foi "severamente afetado", lamenta a associação, defendendo que deverá existir uma atenção especial na contenção do fogo, com vigilância no perímetro para evitar reacendimentos.

Daquele Sítio da Rede Natura 2000, destaca-se o habitat prioritário de adelfeirais, no fundo dos vales, e também os medronhais e sobreirais nas encostas.

"Monchique é o único sítio em Portugal onde ocorrem os carvalhais ibéricos de 'quercus faginea' e 'quercus canariensis'. O carvalho-de-monchique 'quercus canariensis' é uma árvore muito rara, pelo que é considerada uma relíquia da nossa floresta autóctone, existindo apenas alguns exemplares" naquela serra algarvia, realça a Quercus.

Aquela zona também integra uma Zona de Proteção Especial da Rede Natura 2000 para as aves selvagens. As serras algarvias abrigam parte importante da população da águia-perdigueira, também conhecida por águia-de-Bonelli, a qual está classificada 'em perigo de extinção".

A Quercus cita o Inventário Florestal Nacional para dizer que, em 2010, a área de eucalipto no Algarve estava próxima dos 30.000 hectares, a grande maioria na Serra de Monchique e envolventes.

Em Monchique, "o eucalipto é a árvore dominante, com 13.888 hectares (72,4%) da área florestal do concelho, seguido pelo medronheiro com 4.679 hectares e pelo do sobreiro com 2.210 hectares", acrescenta.

"As políticas públicas não têm apostado na floresta autóctone, mantendo o problema da falta de ordenamento e gestão florestal", resume a Quercus, realçando ainda que "o ciclo de incêndios é recorrente na serra de Monchique".

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