Vila Praia de Âncora

Trabalhadores à porta da Camipão para evitar saída de material

Trabalhadores à porta da Camipão para evitar saída de material

Os trabalhadores da panificadora Camipão montaram vigilância à porta da empresa em Vila Praia de Âncora, depois de se terem apercebido da retirada de máquinas e material do interior das instalações.

Em turnos de dois, estão a vigiar o local em contínuo durante 24 horas. "Desde essa altura nunca mais saímos de lá. Temos sempre duas pessoas em permanência, dentro do carro, a vigiar. Estamos com receio que levem tudo o que está lá dentro. A nossa intenção é ligar à GNR caso apareçam lá", contou ao JN José Luís Lima, Técnico Oficial de Contas (TOC) da empresa, agora porta-voz dos trabalhadores.

Dispensados pela administração da Camipão de um dia para o outro, a 24 de março, os 60 funcionários estão em luta em todas as frentes. "Nós não vamos parar e estamos muito unidos. O barco é o mesmo. Temos gente a passar mal, com grandes necessidades", afirma, referindo que os trabalhadores já pediram a insolvência da empresa e a intervenção da ACT, que na segunda-feira deverá deslocar elementos àquela empresa. Suspenderam também os contratos de trabalho, para poderem ter acesso a fundos para a sua sobrevivência.

Segundo José Luís Lima, a Camipão deverá ao conjunto dos seus funcionários "mais de 200 mil euros". Estão por pagar subsídios de férias e natal de 2019, e à maioria dos trabalhadores ainda o subsídio de natal de 2018. Quanto a salários, apenas terá sido pago meio mês de janeiro de 2020. "Temos situações muito complicadas com famílias com ordens de despejo e avisos de corte de luz e água", afirma o porta-voz do trabalhadores, referindo que "pelo menos seis famílias estão já a ser apoiadas por juntas de freguesia no pagamento de renda, água, luz e bens alimentares e de higiene pessoal".

A administração da Camipão, que se tem mantido incontactável, terá comunicado a suspensão da atividade da empresa de forma informal no dia 24 e mantém-se em silêncio até hoje. "O administrador fez uma comunicação de boca anunciando que iria parar a atividade no dia seguinte. Aproveitou-se da situação para ver se entre o barulho do Covid-19 escapava entre os pingos da chuva", acusa José Luís Lima.

Quando encerrou, além das instalações e fábrica em Vila Praia de Âncora, a Camipão tinha 11 lojas a funcionar concelhos de Caminha e Vila Nova de Cerveira, sete das quais propriedade da empresa. Chegou a ter lojas em Monção e Viana do Castelo.

Para dia 11 de abril estará convocada uma assembleia de acionistas.

A Câmara de Caminha está a acompanhar a situação. O autarca local Miguel Alves reuniu com os trabalhadores na passada sexta-feira e destaca a importância da intervenção da ACT já esta segunda-feira. "O decreto aprovado pelo primeiro-ministro do estado de emergência tem uma cláusula especial que permite à ACT imediatamente levantar um auto, notificar o empregador e assim fazê-lo incorrer em responsabilidades em relação ao encerramento da Camipão", explicou, acrescentando: "Isso é importante porque permite aos trabalhadores recorrer imediatamente a um fundo de apoio social e ter rendimento num prazo curto de algumas semanas".