Conta-me como foi" é uma das séries de ficção portuguesa mais interessantes que a televisão nos deu nos últimos anos.
Ainda que a ideia original seja espanhola, a adaptação portuguesa foi bem conseguida porque, por um lado, foi retratando um certo Portugal, fechado em si mesmo, provinciano, amordaçado e, por outro, reuniu um grupo de actores que conseguiram diluir-se nas personagens, dando-lhes uma identidade própria e humanidade, trazendo-as à vida e à intimidade do público.
Miguel Guilherme, Rita Blanco, Catarina Avelar (acompanhados por um naipe de bons profissionais) são, seguramente, os grandes responsáveis pela forma como a "família Lopes" se tornou próxima e a série se transformou, ou quase, numa série de culto, até porque os telespectadores não foram tantos quanto a qualidade do programa merecia.
Porém, a RTP existe não propriamente para disputar percentagens de "share", mas para prestar um serviço público. Era o caso.
De regresso no passado domingo, "Conta-me como foi" perdeu a antiga magia. O modelo seguido é o mesmo, os actores mantêm-se, tal como a qualidade do seu desempenho e a da realização.
O problema é que estamos perante mais do mesmo; não se acrescenta, repete-se. E isso faz com que fraquezas do programa sobressaiam. O país da história é Lisboa, as personagens são "alfacinhas" (mesmo que haja primas da província), a vida que se acompanha é a de uma família da pequena burguesia, cuja mobilidade social ascendente falhou; ou seja, apenas se retrata uma parte e não o todo.
O que a série nos mostra é o Portugal dos remediados, dos medrosos, dos conformados, visto por eles próprios. Nada de novo, portanto, a não ser talvez o dispensável garrafão na praia do Algarve (era uma garrafa, mas ainda assim...).
A vontade de chegar ao fim de um percurso cronológico é insuficiente para justificar o regresso do "Conta-me", quando não há mais para contar, ainda que se mostrem imagens do país e do mundo, vindas do arquivo da RTP, ou nos seja dada a oportunidade de revisitar Fernando Peça. E há referências que exigem mais detalhe, maior aprofundamento.
A este propósito, espero que no próximo episódio se deixe claro que o incidente dos "dois estudantes alvejados em Económicas", foi um ataque imperdoável da PIDE (mesmo que o crime tenha ficado impune, como ficou), num anfiteatro do então Instituto Superior de Ciências Económicas e Empresariais (hoje, ISEG), no qual foi assassinado a tiro o estudante de Direito, José Ribeiro Santos.
O agora estreado novo conjunto de episódios de "Conta-me como foi" vai fazer pacificamente o seu caminho. Cumprirá o calendário sem compromer porque não envergonha ninguém. Mas receio que seja um percurso penoso. É que ou eu me engano muito ou o "Conta-me como foi", já era.
