
Netflix despediu-se de "Stranger things" com uma temporada que transformou a nostalgia numa ópera sombria sobre o fim da infância
Foto: Direitos reservados
"The Pitt", "Task", "Pluribus", "Andor", "Alien: Earth" e "Stranger things" estão entre as melhores ficções seriadas que vimos neste ano.
2025 revelou-se um ano de paradoxos: a oferta nas plataformas de streaming transformou-se num labirinto infinito com tanto de euforia como de desespero. Gastamos minutos preciosos a percorrer grelhas intermináveis de menus com o comando na mão, quase paralisados pela indecisão, perdemos mais tempo a escolher o que queremos ver do que a ver realmente. No entanto, no meio dessa cacofonia de algoritmos que tentam desesperadamente antecipar os nossos desejos, surgiram produtos que conseguiram transcender o ecrã.
Entre "gore" hospitalar, drama operário e ficção científica existencial - vezes dois -, eis as séries que conseguiram furar a bolha do "conteúdo descartável" para se tornarem televisão obrigatória.
O melhor drama é real
No topo desta lista está "The Pitt" (HBO Max). Protagonizada por Noah Wyle, a série é um retrato visceral do centro de trauma de um hospital público em Pittsburgh, EUA. Não é apenas mais um drama médico; é uma análise crua sobre o colapso dos sistemas públicos e a resiliência, melhor dizendo, o masoquismo, dos profissionais de saúde. A realização é tão intensa que quase conseguimos sentir o cheiro a antissético e o cansaço dos corredores do hospital.
Também na HBO Max, o grande arrebatamento - porque inesperado - foi "Task". Mark Ruffalo interpreta um detetive do FBI numa Pensilvânia operária, mas a trama vai muito além do crime. A série foca-se na investigação de um homicídio que vai abrir feridas antigas numa comunidade esquecida. Ruffalo, num estado de graça melancólico, carrega o peso de um homem que tenta equilibrar o dever moral com o desmoronamento da sua vida pessoal, num realismo que magoa.
Mark Ruffalo na série "Task" (Foto: Direitos reservados)
Especular é preciso
No campo da ficção especulativa, a Apple TV+ continua imbatível. O regresso de "Severance" trouxe-nos finalmente as respostas sobre a separação entre a vida profissional e pessoal, mantendo o seu estilo visual cínico, clínico e perturbador. Na vaga desse sucesso, surgiu "Pluribus", a nova aposta de Vince Gilligan no delírio existencial. A série explora um mundo onde a moralidade é colocada à prova por uma descoberta tecnológica invulgar, mantendo a tensão humana que o criador de "Breaking bad" inventou.
Ainda no registo da resistência, a segunda temporada de "Andor" (Disney+) elevou o patamar da ficção científica. Aqui a rebelião é um ofício burocrático e perigoso, uma peça de relojoaria narrativa que culmina de forma magistral nos eventos que já conhecemos no cinema. É, talvez, o momento mais intelectualmente honesto do universo "Star wars".
Curiosamente, 2025 foi também o ano de uma ressurreição por via da descoberta tardia. "The knick", o drama médico de Steven Soderbergh de 2014 tornou-se o novo vício coletivo. Neste objeto artístico de execução irrepreensível, o público deixou-se fascinar pela série que disseca a medicina primitiva de 1900 com uma estética moderna e febril. O protagonista é o Dr. Thackery (Clive Owen), um cirurgião brilhante cujo génio inovador é alimentado por um vício profundo e paralisante em cocaína e ópio, ilustrando a linha ténue entre a transcendência intelectual e a ruína química. É a prova de que uma obra de mérito singular sobrevive sempre à tirania da novidade.
Drama médico de Steven Soderbergh de 2014 tornou-se o novo vício coletivo (Foto: Direitos reservados)
Entretanto, o fenómeno da "continuidade eterna" não abranda. "The white lotus" (temporada 3) levou o seu cinismo de luxo para a Tailândia, provando que o vazio existencial dos ricos é um recurso inesgotável. E, enquanto processamos os traumas de 2025, o horizonte de 2026 já nos espreita: a confirmação de que as novas temporadas de "The white lotus" e "The last of us" já estão em produção recorda-nos que a televisão moderna não permite conclusões, apenas hiatos.
A Netflix despediu-se de "Stranger things" com uma temporada final que transformou a nostalgia numa ópera sombria sobre o fim da infância, enquanto a Disney+ surpreendeu com "Alien: Earth", adaptando o horror dos filmes "Alien", e o imbatível terror do seu xenomorfo, sem perder a sua ferocidade vital.
No meio disto tudo, estamos todos, no fundo, apenas à espera do próximo episódio que nos explique quem somos.
Para ver em 2026
"A Knight of the Seven Kingdoms" (HBO)
Novo spin-off de "Game of thrones" estreia a 18 de janeiro. Traz um cavaleiro ingénuo e o seu jovem escudeiro, 100 anos antes da série original.
"Lanterns" (HBO)
De James Gunn, esta série segue os polícias intergalácticos Hal Jordan e John Stewart. Num estilo de investigação sombrio, é comparada a "True detective".
"Wonder man" (Disney+)
Com estreia a 27 de janeiro, introduz Simon Williams no mundo Marvel. Interpretada por Yahya Abdul-Mateen II, explora o mundo de Hollywood através de um ator que ganha superpoderes icónicos.
"Scooby-Doo" (Netflix)
É a primeira grande adaptação live-action em formato de série da famosa animação. Promete uma abordagem moderna e madura do grupo de adolescentes e do cão detetive.
"Young Sherlock" (Prime Video)
Realizada por Guy Ritchie, esta prequela estreia a 4 de março. Hero Fiennes Tiffin interpreta um Sherlock de 19 anos envolvido num mistério de homicídio em Oxford.
