
Sob o governo de Viktor Orbán, segundo a RSF, cerca de 80% dos meios de comunicação húngaros estão sob influência de aliados políticos
Foto: Ferenc ISZA / AFP
Grupo ligado a Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria desde 2010, compra o jornal mais popular do país. Repórteres Sem Fronteiras alerta para retrocesso global da liberdade de imprensa.
A extrema-direita húngara voltou a apertar o cerco à comunicação social. O "Blikk", jornal mais lido do país, foi comprado pela Indamedia, grupo empresarial controlado por Miklós Vaszily, aliado próximo do primeiro-ministro Viktor Orbán. O conglomerado, que já detém o canal TV2, alinhado com o partido Fidesz, reforça assim o domínio governamental sobre os média e consolida a influência política do regime.
A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) classifica Orbán como "predador da liberdade de imprensa" e estima que 80% dos meios húngaros estejam sob controlo direto ou indireto de empresários próximos do Governo. A compra do Blikk levou à demissão do diretor e de vários jornalistas, que denunciaram "ingerência política inaceitável". Desde que regressou ao poder, em 2010, Orbán transformou a Hungria num exemplo de "democracia iliberal", centralizando poder e reduzindo o espaço da imprensa independente.
A Hungria não é caso isolado. Em países como a Polónia, o Governo conservador do partido Lei e Justiça (PiS) aprovou leis que lhe permitiram controlar diretamente a nomeação de diretores da rádio e televisão públicas, provocando protestos de organizações internacionais e críticas da União Europeia. O caso polaco, iniciado em 2016, tornou-se um dos primeiros sinais de alarme sobre a interferência política nos média no bloco europeu.
Declínio global da liberdade de imprensa
O alerta da RSF, publicado em maio, mostra que a liberdade de informar está em declínio em mais de 60% dos países avaliados - o pior resultado da última década. Segundo a organização, a fragilidade económica é hoje a principal ameaça à independência jornalística. O domínio das grandes plataformas tecnológicas e a concentração de propriedade dos média agravam o problema, ao desviar receitas e limitar o pluralismo informativo.
"A economia da imprensa está em colapso e isso ameaça diretamente a democracia", alertou Christophe Deloire, secretário-geral da RSF.
Portugal mantém-se entre os dez mais livres
Apesar do cenário global negativo, Portugal manteve-se no oitavo lugar entre 180 países, com 84,26 pontos. A RSF descreve a liberdade de imprensa portuguesa como "robusta", sublinhando que os jornalistas trabalham sem grandes restrições, à exceção de incidentes isolados ligados à extrema-direita e a adeptos de futebol.
O relatório nota que o mercado português é dominado por cinco grandes grupos - Impresa, Cofina, Media Capital, Global Media (ainda sem ter em conta a reestruturação) e RTP - e alerta para a ausência de média locais em um quarto dos municípios. A RSF sublinha ainda a fragilidade económica das redações e os baixos salários, agravados pela crise na Global Notícias, que marcou o final de 2023 e o ano swguinte.
Portugal continua entre as democracias com maior confiança pública nos média, mas a RSF avisa: nenhum país está imune à pressão económica e política que ameaça o jornalismo livre.
Europa reage com nova lei para proteger o jornalismo
Em resposta ao declínio da liberdade de imprensa, entrou em vigor, a 8 de agosto, a Lei Europeia da Liberdade dos Meios de Comunicação Social (EMFA), que estabelece regras para garantir a independência dos órgãos públicos, reforçar a transparência da publicidade estatal e limitar o uso de software espião contra jornalistas.
O novo regulamento obriga também as plataformas digitais a não eliminar arbitrariamente conteúdos de meios independentes. "Com esta lei, jornalistas e cidadãos em toda a Europa ganham salvaguardas sem precedentes", afirmou o comissário europeu Michael McGrath

