
A operação permitiria à Netflix integrar os estúdios da Warner Bros. Discovery
Foto: Robyn Beck/AFP
Negócio avaliado em mais de 70 mil milhões de dólares, cerca de 65 mil milhões de euros, levou executivos ao Congresso norte-americano. Senadores manifestaram preocupações sobre concorrência, preços do streaming e concentração de poder na indústria audiovisual.
Os principais responsáveis da Netflix e da Warner Bros. Discovery estiveram, na última semana, no Senado dos Estados Unidos para responder a perguntas sobre a fusão anunciada entre as duas empresas, um negócio que poderá redesenhar o mapa global do entretenimento e criar um dos maiores conglomerados mediáticos do mundo.
Avaliada em mais de 70 mil milhões de dólares, o equivalente a cerca de 65 mil milhões de euros, a operação permitiria à Netflix integrar os estúdios da Warner Bros. Discovery e um vasto catálogo de cinema e televisão, incluindo algumas das marcas mais reconhecidas da cultura popular contemporânea, como Harry Potter e o universo DC Comics. Para vários senadores, o acordo levanta dúvidas sobre o impacto nos consumidores, nos criadores e no equilíbrio do mercado.
Perante o comité judiciário do Senado, Ted Sarandos, CEO da Netflix, rejeitou a ideia de que a empresa esteja a caminhar para uma posição dominante. "Os consumidores têm hoje uma enorme variedade de escolhas entre televisão generalista, cabo, plataformas de streaming e grandes empresas tecnológicas", afirmou, defendendo que o setor é altamente competitivo e continua em transformação.
Cultura e influência política em debate
As maiores reservas partiram do campo democrata, com o senador Cory Booker a alertar para os riscos de uma concentração excessiva de produção e distribuição. "Esta transação junta um dos maiores produtores de conteúdos a um dos maiores distribuidores", afirmou, sublinhando preocupações com o futuro dos artistas, da diversidade criativa e da forma como milhões de pessoas consomem conteúdos audiovisuais.
Do lado republicano, o debate desviou-se para questões culturais. Josh Hawley acusou a Netflix de promover conteúdos ideologicamente orientados, sobretudo na programação dirigida a crianças, questionando se essa linha editorial reflete uma posição política da empresa. Sarandos respondeu que a plataforma "não tem qualquer agenda política" e que o seu catálogo procura refletir uma ampla diversidade de gostos, valores e públicos.
A audiência ficou ainda marcada por perguntas sobre o eventual envolvimento do presidente Donald Trump na avaliação do negócio pelo Departamento de Justiça. Sarandos confirmou ter-se reunido com o chefe de Estado semanas antes do anúncio da fusão, garantindo que a conversa se centrou no estado da indústria e na proteção do emprego nos Estados Unidos. Trump admitiu publicamente acompanhar o processo, referindo que a quota de mercado da Netflix aumentaria de forma significativa com a aquisição.
Embora a CNN não faça parte do acordo, a independência editorial do canal de notícias também foi tema no Senado. Bruce Campbell, da Warner Bros. Discovery, assegurou que a estação continuará a operar com liderança própria e autonomia editorial. Paralelamente, associações da indústria exibidora alertaram para possíveis cortes de postos de trabalho e menor estabilidade num setor já marcado por reestruturações. A Netflix garante que o processo de análise regulatória está ainda numa fase inicial e que não identifica riscos de consolidação excessiva.

