Uma pesquisa divulgada no Brasil revelou que as novelas interferem no número de nascimentos e divórcios no país. As espectadores incorporam o comportamento das heroínas, mudando as suas atitudes em relação ao casamento e à família.
O estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) - que cruzou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com informações da Rede Globo - concluiu que o índice de divórcios cresceu na mesma proporção em que o sinal da estação se espalhava pelo Brasil. O mesmo aconteceu com os índices de fertilidade, que diminuíram drasticamente.
Segundo as investigações, intituladas "Novelas e fertilidade: Evidências do Brasil" e "Televisão e divórcio: Evidências de novelas brasileiras", em 1970 só 0,1% do país recebia o sinal da Globo, índice que subiu para 35,5% na década de 80, para 86% em 1991 e para 98% nos anos 2000. Neste período, o número de divórcios cresceu de 3,3 a cada 100 casamentos para 17,7 e a taxa de fertilidade caiu 60%.
Para chegar à conclusão de que a mudança se deve à influência das novelas, os investigadores analisaram 115 produções, emitidas nos horários das 19 e das 20 horas de 1965 a 1999. Do total, 72% das protagonistas femininas não tinham filhos, 30% eram infiéis e 20%, divorciadas ou separadas. Especialistas em telenovelas explicam que a influência das tramas nas brasileiras é inconsciente: "Ela se dá porque a telenovela acompanha, e às vezes vai além, das tendências da sociedade. De tanto ver que o cenário é de uma família pequena, a pessoa acaba pensando: 'olha, é muito difícil a responsabilidade de criar muitos filhos'. A novela tornou-se num programa legítimo em que a mulher brasileira confia", explica a investigadora Maria Immacolata Vassallo Lopes, do Centro do Estudo de Telenovela da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
Para a antropóloga Miriam Goldenberg, as mulheres vêem nas heroínas dos folhetins um modelo: "O comportamento que se reproduz na novela é o de mulheres independentes, que se tornam modelo a ser imitado. Se elas aparecem nas novelas com menos filhos, trabalhando, com maridos mais jovens, com vários parceiros, isso vira uma coisa que as pessoas não só aceitam como reproduzem".
A pesquisa do BID conclui que são as mais pobres que mais modificaram o comportamento. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2007, 98,42% dos lares brasileiros têm pelo menos um televisor.
