Miguel Portas chega de mala de viagem na mão e sobe connosco até ao sexto andar do prédio onde mora, em Lisboa.
O eurodeputado do Bloco de Esquerda (BE), que se recandidata, vai pedindo desculpa porque a campanha não tem horas certas e desta vez estava a chegar dos Açores. Enquanto nos faz entrar em casa fala-nos do livro - "Périplo" - que iria lançar daí a dias. Revela que a chave para ler os objectivos do BE nas Europeias "é a recomposição da Esquerda".
Teme que a coesão europeia entre em crise?
Nos próximos anos, vai travar-se uma intensa batalha política na Europa à volta do que deve ser a dimensão e a natureza do orçamento comunitário. Não sei qual vai ser o resultado final. Mas o orçamento tal qual existe é incapaz de enfrentar a crise que vivemos.
Vai bater-se para que Portugal não perca fundos?
Vou bater-me pela procura de novos recursos próprios para a UE por via do fim dos paraísos fiscais, taxação das operações de compra e venda de títulos e produtos financeiros em Bolsa, e por via da emissão de dívida pública europeia.
Esta é uma das grandes discussões estratégicas a fazer sobre o futuro da Europa?
Esta é a discussão dos próximos anos. Vamos sair da crise com mais injustiça do que quando entrámos nela ou, pelo contrário, vamos sair dela através de jogos de soma positiva - com mais justiça na economia?
A influência no PE mede-se pelo número ou a qualidade?
Há muitas formas de falar da qualidade do trabalho do deputado, que pouco têm a ver com rankings estatísticos. O que é mais interessante? Fazer uma intervenção de um minuto sobre os trabalhadores temporários portugueses na Holanda ou ir com uma televisão atrás revelar o escândalo? E exigir a intervenção da justiça holandesa? E fazer pressão sobre o consulado? Isto não vale um minuto, vale muitos minutos de intervenção.
Esse tipo de intervenção tem impacto no voto?
Impacto não sei. Sei que tenho alertado, sobretudo os jovens, para que não é natural que hoje tenham que procurar emprego como se procurava no final do século XIX, e para que a Universidade hoje seja cara no primeiro ciclo e caríssima no segundo ciclo. Este é o processo de Bolonha...
Este é um processo europeu.
Sim, mas é um processo absurdo. É basicamente pôr as famílias a pagar o ensino.
A Europa aceitará discutir o processo de Bolonha?
Só rediscutirá quando os estudantes se levantarem. Ou se mexem ou não podem esperar que alguma coisa mude se eles mesmos não quiserem fazer nada.
Lutar em partidos já não chega?
Não é só lutar em partidos. Em muitos países ocupam-se universidades por muito menos.
Isso não é subversivo?
Isso é o exercício da democracia. Há muitas formas de lutar, a primeira é votar no dia 7 de Junho. O voto é só uma das formas de luta.
Nas eleições vai estar em causa a governação socialista?
Será a primeira chamada de um exame que se vai concluir em Setembro.
O BE também estará em teste?
Mais vale assumir o teste porque, de facto, este é um teste ao Governo, mas também à qualidade das oposições.
Soares escreveu no DN que se o PS não tiver maioria, "a viragem útil é à Esquerda". Que leitura faz?
Se há coisa clara hoje é que as boas respostas à crise estão na esquerda. Mas não basta mudar políticas.
Que condições é que o BE põe para se entender com o PS?
Com a actual direcção socialista o Bloco não vê solução governativa. Ponto final.
Soares apela a que uma maioria sociológica se torne política.
O crescimento do BE é a primeira condição para que a liderança socialista perca a maioria absoluta e seja confrontada com a opção: bloco-central ou discussão lei-a-lei à sua Esquerda. Mas com a liderança PS não é possível ter políticas de esquerda. É possível lutar, mudar políticas, mas não é possível alterar a natureza de Sócrates.
Para quê então o reforço da Esquerda?
Nós pensamos que poderemos mudar o sentido de algumas políticas. Se fosse com Manuel Alegre, discutiríamos política de outro modo. Não por acaso Alegre não é candidato às legislativas.
A solução é Manuel Alegre?
É indispensável o reforço da Esquerda. Esse é o combate: a própria recomposição da Esquerda, uma vontade de aproximação e convergência de gente que vem de muitas origens.
