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Associação Comercial do Porto: a defender os interesses do Norte desde o Século XIX

Associação Comercial do Porto: a defender os interesses do Norte desde o Século XIX

A palavra é por vezes lida com uma conotação negativa. Mas na Associação Comercial do Porto (ACP), o conceito de "lóbi" é assumido com firmeza e honestidade: "o nosso papel é ser um motor interventivo de lóbi e de defesa dos interesses da região!" Quem o diz é Nuno Botelho, o homem que se seguiu a Rui Moreira nos comandos de uma Associação que tem as suas raízes em 1834 e que continua a assumir-se como baluarte da defesa dos interesses de quem faz prosperar a economia da região. Hoje como há 180 anos, combater o centralismo ainda é o grande desafio de uma instituição que tem no Palácio da Bolsa o quartel general.

Aos quarenta anos, Nuno Botelho está longe de ser um principiante nos comandos de uma das mais antigas associações comerciais do país. Acionista fundador da empresa responsável pelo maior evento nacional na área vínica - a Essência do Vinho - já conhece bem os cantos à casa que hoje preside, e para a qual foi eleito por unanimidade.

Como presidente da Associação, tem o desafio de fazer valer a voz de uma multiplicidade heterogénea de associados, com interesses privados, mas que buscam em uníssono o bem comum da região: "temos desde o senhor de uma loja de rua, ao Américo Amorim".

Dito isto, Nuno Botelho tem de lidar com as necessidades de todas as variáveis desta equação. Uma gestão que exige um jogo de cintura no momento de decidir e tomar decisões. A palavra chave parece ser "conciliar" e "trabalhar de forma a fazer com que o "comum" sobressaia sobre o particular", garante Nuno Botelho para quem esta diversidade não é um óbice.

Encara-a mesmo como uma virtude da associação: "Temos uma diversidade muito grande de opinião, os problemas não são todos iguais e cada um tem as suas questões e as suas idiossincrasias" o que implica "ter na direção representantes de vários sectores de atividade".

Segundo o líder da ACP, neste momento dispõe de "14 membros na direção, não executivos" representativos de profissões liberais, das artes, da indústria têxtil, e da indústria do Vinho do Porto. Assegura que "há aqui uma panóplia muito grande de possibilidades em que, sobre diferentes temas, podemos abordar várias perspectivas."

Feitas as contas aos associados, a ACP soma 1000 privados e 500 empresas, com sócios locais mas também estrangeiros, "temos sócios espanhóis, e já tivemos ingleses".

Segundo o Presidente, o único pré-requisito de entrada é "ter uma atividade económica na região". Normalmente, cada novo associado "é proposto por outro sócio" e em regra geral são aceites. Nuno Botelho faz questão de sublinhar que a ACP "não é um clube, é uma associação" e garante que "não há aqui nenhuma ideia de elitismo. É uma associação aberta!"

Uma vez integrados, cada membro tem de pagar uma quota anual. Para se ser eleito e poder votar em assembleia geral, "é preciso ser-se sócio particular. As empresas não têm essa prerrogativa, há essa diferença". Os sócios particulares pagam atualmente 300 euros anuais, valor que no próximo ano será reduzido para os 240 euros.

Juntos somos mais fortes

Nuno Botelho sente que "o grande desafio" que se lhe coloca é "demonstrar à sociedade que a sua atividade enquanto defesa dos interesses e do lóbi da região é útil para os seus negócios!" E aqui há questões de fundo que se sobrepõem a interesses privados: "Quando abordamos as infraestruturas, estamos a ir ao encontro das pretensões do senhor da loja do fundo da rua ou do senhor Américo Amorim".

E estas questões nem sempre são fáceis de quantificar. Basta um mergulho pela história da associação para perceber o seu papel na criação do Centro de Estudos Económicos e Financeiros, percussor da atual Faculdade de Economia da Universidade do Porto, ou a própria criação da Bolsa de Valores da cidade.

Para falar de casos mais recentes, Nuno Botelho refere o Aeroporto Francisco Sá Carneiro e a criação de novas rotas com a chegada da Ryanair e da TAAG - Linhas Aéreas de Angola: "Por cada rota a mais que conseguimos abrir, o associado beneficia porque ganha mais um destino de exportação", uma realidade nem sempre tangível aos olhos de muitos empresários.

As grandes causas

Dossiers quentes não faltam em 180 anos de atividade. Nuno Botelho elege, por exemplo, o polémico novo aeroporto de Lisboa e recorda o estudo encomendado à Universidade Católica que "demonstrou à sociedade que a solução não passaria por construir na OTA mas por Alcochete ou Montijo." Dados independentes e factuais que terão contribuído para que "o governo acabasse por optar pela manutenção da Portela e na escolha de Alcochete."

Igualmente estratégico terá sido o papel da ACP na construção do Porto de Leixões, encarado como "a grande infraestrutura da região" e de onde saem "quase 40% das exportações nacionais".

Aliás, tão importante como a construção, terá sido o papel da associação aquando da polémica "holding dos Portos". A "ACP impediu a constituição da holding" o que terá permitido ao Porto de Leixões manter a sua gestão descentralizada. Nuno Botelho esclarece: "Quem está no Conselho de Administração é quem está no terreno", "e não alguém sentado em Lisboa num gabinete qualquer, que viria cá de três em três meses e que não teria a mesma agilidade de gestão".

Para cada uma destas contendas, os interlocutores foram sempre diferentes. Mas Nuno Botelho diz haver uma tendência transversal a cores políticas e legislaturas: cada "governo é sempre mais centralizador que o anterior". E tem uma explicação para este fenómeno: o "Estado tem cada vez menos dinheiro e menos meios para acorrer ao que se passa no resto do país".

Apesar da esperança de que no futuro se possa inverter esta tendência, o certo é que para a ACP, o Porto tem tido mérito de contribuir para "combater esta crise que temos vivido." E tudo graças ao "tecido empresarial da região que está a dar cartas", sobrevivendo e aprendendo a lidar com as adversidades, embora muitas empresas tenham acabado por definhar pelo caminho.

Além desse aparente "espírito de resiliência", Nuno Botelho faz questão de sublinhar a importância dos consensos encontrados entre os vários interlocutores locais - incluindo autarquias, a igreja e outros agentes. Desse ponto de vista, garante que "estamos a viver um período único", porque com esta crise "percebemos que unidos vamos conseguir dar a volta mais facilmente."

Fazer bem, para ser livre

A autonomia financeira é uma prioridade. Nuno Botelho confessa que "tem uma liberdade de opinião bastante grande porque a ACP não depende em nada do Estado. E portanto, é livre de pensar e de dizer aquilo que de facto seja o melhor para a região."

Para que esse conforto seja possível, a ACP teve de passar por um processo de reestruturação que lhe permitiu encarar esta crise de uma forma muito mais ligeira: "nós não sentimos a crise!"

E o que é que esse processo implicou? Desde logo foi preciso redimensionar a estrutura: "Tínhamos mais de setenta funcionários. Hoje teremos pouco mais de trinta", mas garante que "não houve despedimentos, mas renegociações, reformas, e tudo foi discutido e tratado com tempo e cuidado."

Os negócios foram reorientados para abraçar o turismo, uma área que disparou desde 2004 graças a um ativo estratégico: o Palácio da Bolsa.

Um Palácio ao seu dispor

Localizado em pleno centro histórico, Património Mundial da Humanidade segundo a UNESCO, o Palácio da Bolsa sempre se afirmou como ex-libris arquitectónico. Construído em 1842, a ACP projetou-o como "ponto de encontro" para os associados trocarem impressões, promoverem negócios, formarem opiniões e assim influenciarem decisões políticas em benefício dos interesses da economia da região.

No passado o Pátio das Nações servia de palco para a bolsa de mercadorias, e mais tarde chegou a albergar a Bolsa de Valores até inícios da década de 1990.

É possível imaginar o ambiente buliçoso que por lá se vivia no pico das transações diárias de todo o tipo de bens... Hoje o Pátio já não alberga essa função e embora já não seja possível ouvir o borburinho dos mercados, é fácil escutar uma multiplicidade de idiomas, que do espanhol, ao inglês, ou do japonês ao chinês, alimentam as conversas dos 300 mil visitantes que visitam o palácio ao longo de um ano.

Atualmente as quotas dos associados valem 7% das receitas da Associação, e só as visitas ao palácio rendem 30% da faturação. Nuno Botelho explica que embora o Palácio da Bolsa "seja uma grande fonte de receita, ao mesmo tempo também é uma fonte de despesa porque obriga a uma constante remodelação e restauro".

Desde 2005 foram investidos 4 milhões de euros em obras de conservação e restauro, num trabalho imparável que começou na reformulação da claraboia central do Pátio das Nações. Aliás, durante o ensaio fotográfico realizado para este artigo era impossível não reparar nos andaimes instalados para restaurar as pinturas que engrandecem a beleza desta sala de visitas.

O certo, é que além de receber forasteiros que estão de passagem pela cidade, o Palácio da Bolsa também é um espaço de trabalho acessível aos associados que a ele podem recorrer para realizar eventos corporativos e reuniões de negócios que claramente poderão beneficiar do carisma que este edifício transpira.

A título de exemplo, o Salão Árabe, talvez a sala mais carismática, pelos estuques dourados e os caracteres arábicos que revestem paredes e tectos, pode ser alugado por 7 500 euros por dia, sendo que esse valor sofre uma redução de 20% para associados da ACP.

Nortear investimentos para 2020

Nuno Botelho não acredita que o Porto e a região possam receber todos os fundos comunitários a que teriam direito no horizonte de 2020. Mas faz uma ressalva: acredita que "vem muito dinheiro mas não todo o que deveríamos receber pelo facto de ainda sermos uma região de convergência."

Posto isto, defende que hoje, mais que nunca, será necessário saber priorizar e canalizar os fundos do QREN "para investimentos na área exportadora, da criação de emprego" e não olhar tanto à criação de infraestruturas "a não ser que estas sejam reprodutivas".

Seja como for, até nesta questão, o papel da Associação Comercial do Porto continuará a ser o mesmo hoje como há 180 anos, um lóbi assumido e empenhado, que "promova a ilustração e a prosperidade da região".

Num horizonte a 10 anos, fazendo crer nas boas perspectivas do turismo, e da resiliência das empresas da região, o Presidente da ACP não tem dúvidas de que "com os estudantes que saem todos os anos da faculdade, e com os empreendedores existentes e os que vão surgir, temos todos os meios para uma região mais competitiva, com menos desemprego, maior poder de compra e boa qualidade de vida". "Se o Estado central não atrapalhar", o Porto e a Região "têm tudo para dar certo".

Associação Comercial do Porto em números

Faturação 2013 - 3 Milhões de Euros

Faturação prevista para 2014 - 3,5 Milhões de Euros

Número Total de Funcionários - 30

Número de Associados: 1 000 Privados e 500 Empresas

300 mil visitantes anuais ao Palácio da Bolsa

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