
Rainha Isabel II, com o príncipe herdeiro Carlos e a mulher, Camila
THOMAS BREGARDIS /AFP
Apoio à democracia é fundamental para famílias reais serem aceites. Capacidade de adaptação garante continuidade.
Em pleno século XXI e apesar de abaladas por alguns escândalos, as monarquias ocidentais continuam a resistir. No Reino Unido, a Rainha Isabel II conta 95 anos e a família real tem dado que falar pelos piores motivos. O mais recente caso foi protagonizado pelo filho André que, na sequência de acusações de agressão sexual, renunciou aos cargos honorários militares e associações de caridade. Em Espanha, o rei Filipe VI ascendeu ao trono após o pai, suspeito de corrupção e criticado pelo estilo de vida de luxo, ter abdicado.
Também noutras partes do Mundo, as monarquias estão a braços com mudanças para garantir a sobrevivência. No Japão, estudam-se soluções para saber quem sucederá ao imperador Naruhito, - as mulheres, para incompreensão de muitos, estão excluídas.
"As monarquias não estão inevitavelmente fadadas a dar lugar às repúblicas presidencialistas", assegura Bob Morris, especialista na monarquia britânica e professor na Universidade de Londres. Várias das que têm sido abolidas nos tempos modernos, explica, tiveram por base fracassos de guerra: Austro-Húngaro, Alemanha Imperial, Rússia, Bulgária, Roménia, Jugoslávia são alguns exemplos.
No livro "O papel da monarquia na democracia moderna", que Morris preparou com Robert Hazell, o especialista sublinha que a existência das atuais monarquias europeias tem sido dependente da sua aceitação e apoio à democracia, para além do apoio e atenção às instituições sociais. "Pode dizer-se que, embora os países pareçam monarquias, na realidade são repúblicas, exceto que têm chefes de estado hereditários", nota o professor.
Os escândalos, contudo, não passam incólumes e têm "consequências", garante Morris. Mas "desde que uma monarquia continue a funcionar de forma aceitável, o dano à reputação pode ter apenas um efeito passageiro". E refletir-se "menos na monarquia como instituição e mais no status e no caráter da pessoa que está no centro do escândalo". Ainda assim, não se deve desvalorizar o resultado de pesquisas recentes, segundo as quais, nos grupos etários mais jovens do Reino Unido, aumentou a preferência por um chefe de Estado eleito.
Combater preconceitos
João Távora, presidente da Real Associação de Lisboa, salienta que "as monarquias ocidentais evidenciam uma enorme capacidade de adaptação a cada tempo, por isso prevaleceram", nomeadamente em países que demonstram progresso económico e social. "São o primeiro e último garante dos direitos e bem-estar das populações", mas agora adaptadas, com funções diferentes, reflete.
No caso do Japão, Távora está convicto que o "sistema vai adaptar-se" e subsistir, até porque "a monarquia imperial japonesa é um elemento fundamental da estrutura do país". Alerta, porém, que é importante que não haja precipitações. As reformas devem permitir "mudar, sem descaracterizar".
Em Portugal, onde a República conta mais de um século, Dom Duarte de Bragança continua a manter ligações com famílias reais noutros países. Também tem "colaborado com todos os governos, em especial no campo das relações internacionais com países com os quais não temos relações próximas", garante, ao JN.
"As ideias feitas, como por exemplo, que as monarquias são regimes do passado e não democráticas ou que os reis governam arbitrariamente, são muito difíceis de ultrapassar porque não se baseiam numa visão da realidade atual", lamenta.
"Os problemas familiares que tem acontecido a algumas famílias reais têm, infelizmente, muito mais impacto do que as excelentes contribuições que, no século XX, estas famílias têm dado aos seus povos", conclui.
