U21955

A unidade secreta russa perita em "subversão, ataques à bomba e assassinatos" na Europa

A unidade secreta russa perita em "subversão, ataques à bomba e assassinatos" na Europa

O melhor elogio que se pode fazer a uma secreta unidade russa especializada em desestabilização é que atuou em segredo pelo menos durante 10 anos. E até os golpes falhados da Unidade 29155 parecem ser parte da estratégia, que passa por instilar o medo.

As autoridades ocidentais começaram, recentemente, a puxar o fio à meada e relacionaram casos aparentemente isolados como ações da Unidade 21955, uma célula secreta russa especializada em extorsão, sabotagem e assassínios. Um braço especial do Departamento Central de Inteligência, a agência central dos serviços secretos russos (conhecido como GRU, na sigla anglo-saxónica), que operou fora de portas, principalmente na Europa, durante uma década sem que os serviços secretos ocidentais soubessem que existia.

"Foi uma surpresa perceber que os russos, o GRU, esta unidade, se tenham sentido livres para conduzir ações extremamente malignas em países amigos. Foi um choque", desabafou um responsável europeu pela segurança. "Esta unidade do GRU está ativa na Europa há anos", acrescentou, sob anonimato, ao jornal "The New York Times", que revela a existência da Unidade 29155.

O grupo foi identificado pela primeira vez em 2016, após a interferência num golpe de estado falhado no Montenegro, mas só dois anos depois, com a tentativa de assassinato de Sergei Skripal, um ex-agente da GRU a viver em Inglaterra, os serviços de informação ocidentais ligaram os pontos e perceberam que havia uma ligação entre estas ações, atribuídas à Unidade 21955.

Usaram gás nervoso tóxico para tentar matar ex-espião Russo em Inglaterra

Sergei Skripal e a filha Yulia, foram atacados em casa, no Reino Unido, em 2016, com um gás nervoso mas sobreviveram, após semanas em estado muito grave. As autoridades britânicas descobriram os suspeitos, que viajaram de Moscovo para Londres com nomes falsos. Apanhados por câmaras de segurança, desde que aterraram no aeroporto de Heathrow, foram fotografados nas imediações da casa do ex-espião, em Salisbury, Inglaterra.

Os dois homens, que terão borrifado a porta de entrada com um gás nervoso altamente tóxico, foram identificados como Alexander Mishkin (nome verdadeiro de Alexander Petrov) e Anatoly V. Chepiga (que viajou como Ruslan Sohirov), um coronel amigo do Major General Andrei V. Averyanov, apontado como o líder da Unidade 21955.

A missão contra Skripal começou a ser planeada um ano antes. Em 2015, três operacionais da Unidade 29155 viajaram para Inglaterra, possivelmente para um ensaio. Um era Alexander Mishkin. Outro usava o nome de Sergei Pavlov; o terceiro, Sergei Fedotov, seria o supervisor da missão.

Pavlov e Fedotov, apurou-se entretanto, fizeram parte da equipa que tentou matar o traficante de armas búlgaro Emilian Gebrev, em 2015. Segundo responsáveis europeus, Ivan Lebedev, Nikolai Kononikhin, Alexey Nikitin e Danil Stepanov participaram também na dupla tentativa de assassinato de Gebrev, primeiro em Sofia, capital da Bulgária, e depois na casa do traficante de armas, no Mar Negro.

"Podemos ver que há um programa de atividades concertado, e sim, frequentemente envolve as mesmas pessoas", argumentou o chefe do MI6, a agência britânica de informações estrangeiras, Alex Younger, em declarações aos jornalistas, em fevereiro, após a Conferência de Segurança, em Munique.

Serem descobertos pode fazer parte da estratégia

Agentes de segurança europeus estão perplexos com o aparente desleixo destas operações atribuídas àquela, até agora, muito secreta unidade especial russa. Sergei Skripal sobreviveu à tentativa de assassinato, assim como o traficante de armas Emilian Gebrev, e o golpe de estado no Montenegro fez ricochete - um ano depois aquela ex-república da Jugoslávia aderiu à NATO.

"Querem que se dê por eles, faz parte do jogo", argumentou Eerik-Niiles Kross, um ex-chefe dos serviços de informação da Estónia. "Este tipo de operações tornou-se parte da guerra psicológica", acrescentou, em declarações ao jornal "The New York Times".

É difícil perceber se estes falhanços são apenas a ponta do icebergue e se, abaixo da linha de água, há muitas operações bem-sucedidas, portanto secretas e ainda por descobrir. O grupo opera há mais de uma década e segundo oficiais dos serviços secretos ocidentais, citados por aquele jornal norte-americano, é impossível saber onde andou ou onde vai atacar.

Viajam livremente pela Europa e pouco está fora dos seus limites

"Sabemos da ameaça permanente do GRU e de outros serviços secretos russos e temos a noção de que pouco está fora dos limites de ação deles", acrescentou Alex Youger.

Segundo o NYT, os agentes da Unidade 29155 viajam livremente por vários países europeus. Alguns são ex-militares condecorados em algumas das guerras mais sangrentas dos russos, incluindo Afeganistão, Chechénia e Ucrânia.

"Gente muito dura. Militares que trabalharam infiltrados como agentes internacionais", disse ao NYT um ex-operacional da GRU, que sabia da existência da U29155. "É uma unidade especializada em missões de subversão, ataques à bomba, assassinatos, tudo".

Fotografias da antiga sede da unidade, reveladas por um "blogger" russo, e validadas ao NYT por este ex-agente, mostram um arsenal de respeito, que incluem armas belgas FN-30, alemãs G3A3s, austríacas Steyr AUGs e as americanas M16.

Comandante da unidade secreta condecorado como Herói da Rússia

O comandante da Unidade 29155, Andrei V. Averyanov, formou-se na Academia Militar Tashkent, em 1988, na então república soviética do Uzbequistão. Acredita-se que lutou na primeira e na segunda guerra da Chechénia. Em 2015, recebeu a medalha de Herói da Rússia, a mais alta distinção militar russa, também atribuída a Alexander Mishkin e a Anatoly V. Chepiga, os dois homens acusados pelo ministério público inglês da tentativa de homicídio do ex-espião russo Sergei Skripal.

As operações desta unidade seriam tão secretas que mesmo dentro do GRU poucos sabiam que existia. O objetivo da Unidade 21955 sublinha o empenho de Vladimir Putin na chamada guerra híbrida contra o Ocidente - um misto de propaganda, pirataria informática e desinformação, que terá levado já à interferência nas eleições presidenciais dos EUA ou no referendo do Brexit.

"Acho que nos esquecemos o quão organicamente implacáveis os russos podem ser", observou Peter Zwack, um militar e oficial de inteligência e antigo adido diplomático na embaixada dos EUA, em Moscovo.

O NYT tentou obter uma reação de Vladimir Putin. Através de uma SMS, o porta-voz do presidente russo, Dmitri S. Peskov, direcionou as perguntas para o Ministério da Defesa, que nunca chegou a responder.