Moçambique

"Martírio" em Cabo Delgado sem fim à vista: 50 decapitados em campo de futebol

Rita Salcedas

Haverá cerca de 400 mil deslocados internos

Foto Ricardo Franco/lusa

Mais de 50 pessoas terão sido decapitadas, em Cabo Delgado, pelo grupo radical islâmico que desde 2017 assombra o norte de Moçambique. Mais de 700 mil precisam de ajuda humanitária no país, estima a Amnistia Internacional.

O massacre levado a cabo por grupos armados no Norte de Moçambique já dura há mais de três anos e não vê prenúncio de fim. "A situação é bastante grave, os ataques continuam e estão a intensificar-se", descreveu ao JN o bispo da diocese de Pemba, na província de Cabo Delgado, engolida pelo terror e pelo medo desde 5 de outubro de 2017, quando começaram incêndios, sequestros e homicídios.

Só nos últimos dias, 11 aldeias do distrito de Muidumbe foram atacadas pelos radicais, com ligação ao autoproclamado Estado Islâmico, que querem dominar a região. De acordo com a Polícia moçambicana, citada pela Agência de Informação de Moçambique, numa dessas aldeias, Muatide, "mais de 50 pessoas" foram sequestradas e depois decapitadas num campo de futebol que se transformou num campo de execuções. O portal de notícias Pinnacle News fala mesmo em centenas e conta "cerca de 40 decapitações" noutras aldeias, incluindo de muitas "crianças com menos de 15 anos".

D. Luiz Fernando Lisboa explica que não há ainda como apurar em rigor o número das recentes vítimas: como as povoações foram dominadas pelos rebeldes, as pessoas fugiram pelas matas, não podem voltar para saber quem morreu, "não podem sequer enterrar os mortos". "A população está a viver um verdadeiro martírio".

Ajuda humanitária não tem sido suficiente, tendo em conta a quantidade de pessoas afetadas

Foto: Ricardo Franco/Lusa

Dois mil mortos e 400 mil deslocados

As autoridades moçambicanas estimam que, nos últimos três meses, 270 pessoas (entre civis e soldados moçambicanos) tenham sido assassinadas e que cerca de 1050 habitações tenham sido destruídas em Cabo Delgado, província rica em petróleo e religiosamente diversificada - é sobretudo casa para muçulmanos, mas também lá vivem católicos e outros povos cristãos.

Ao todo, desde há três anos, cerca de duas mil pessoas terão morrido e 400 mil visto na fuga para províncias vizinhas a única solução, aponta o sacerdote. Segundo as Nações Unidas, em apenas duas semanas de outubro 11.200 pessoas - quase metade das quais crianças - fugiram para a capital da província, Pemba. "Quem não foge por ter sido atingido diretamente pelos ataques, foge de forma preventiva", diz o bispo de Pemba, na frente da resposta humanitária às necessidades da população. Que são muitas. De acordo com um relatório divulgado pela Amnistia Internacional no mês passado, há 712 mil moçambicanos a precisarem de ajuda humanitária. Há muitas organizações da ONU e da sociedade civil a trabalhar no terreno, mas não há tendas nem comida suficiente para tanta gente que foge de casa, lamenta D. Luiz Fernando Lisboa, que aguarda, para breve, a já prometida ajuda humanitária da União Europeia, no que diz respeito a "formação" e "logística". Não virá ajuda militar.

Distribuição de mantas na zona de acomodação de deslocados em Metuge, Pemba, julho de 2020

Foto: Ricardo Franco/Lusa

Relacionadas