
Alienor, francesa de 23 anos
Na segunda maior universidade do Mundo em variedade de nações, o JN fala com estudantes da Inglaterra, França, Alemanha, Turquia e Equador para perceber o Brexit. Todos acordam: a saída do Reino Unido da UE não serve a ninguém.
O sentimento de fúria com o Brexit (inopinada saída do Reino Unido da União Europeia dos 28, decretada por 52% de votantes no referendo-choque do dia 23) é tão grande que Scott Fornman, 24 anos, britânico, a tirar mestrado na London School of Economics (LSE), quer a Inglaterra fora do Europeu de futebol e já. "Yeah, out!", diz ele tristemente, "já não me sinto inglês, só quero é ser europeu". Por isso, vai torcer pelo "underdog" - "a Bélgica, eles merecem, tiveram tempos políticos muito duros".
Vão partir daqui, da reputada LSE, universidade pública de Londres onde se estuda a ciência política e os mercados, com alunos de 155 países, as mentes que vão governar o futuro. E pela amostra colhida pelo JN, o Brexit escureceu, e muito, o céu que aí há-de vir.
"O resultado foi chocante", torna Scott, que até andou nas ruas da sua vizinhança a fazer campanha para o Reino Unido ficar, "e mais visto daqui, porque Londres votou massivamente [75%] para continuar na UE. É outro problema: o meu país vive demasiado centrado na sua capital, sem distribuição de riqueza igual pelo território de norte a sul. Foi isso que levou os mais pobres, os de lá de cima da ilha, a dizer não o à UE. Mas vamos embrutecer e a vida toda vai encarecer. Nada é bom", diz ele a fitar o chão e a repisar.
E a Londependence? Nah, diz o Scott
Acreditará Scott na petição que quer transformar Londres numa Cidade-Estado para assim poder permanecer dentro da UE? "Nah", diz ele a atirar-se para trás na cadeira, "Londres já é demasiado odiada pelo resto do país, essa independência nunca vai acontecer". Mas a petição, lançada no dia a seguir ao referendo, e que já tem até o seu próprio acrónimo (Londependence) segue e já soma 174.656 assinaturas, faltando apenas 25.344 para chegar às necessárias 200 mil e ser enviada para o mayor de Londres, o muçulmano Sadiq Khan.
Nada disso ou do anterior demoverá Scott Fornman, que diz querer seguir carreira politica quando se formar. "O futuro vai precisar de homens de política muito diferentes, muito, dos que já cá estão e eu vou ser um deles, vocês vão ver".
O divórcio é amigável ou litigioso, perguntam elas
As três já estavam gesticular sobre o Brexit antes do JN se sentar à mesa delas numa das praças solarengas da LSE (e que fica curiosamente numa rua chamada Portugal Street): Sophie, 24 anos, alemã, Yagnur, 30 anos, turca, Alienor, 23 anos, francesa, as três a tirar o mestrado de um ano em Política da União Europeia.
É Alienor, a francesa, a de olhos mais furiosos. "Como vi o resultado? Disse logo WTF?!" [mas que raio, em tradução branda]. Compreende-se a sua raiva: "Lá em casa fala-se agora do Frexit [saída da França da UE], um fantasma negro que começa a ganhar forma. E a Marine Le Pen [do partido nacionalista de extrema-direita] já está a cavalgar nessa demagogia, o que é obviamente um problema para as nossas presidenciais de 2017".
"Sim, é obviamente grave", diz a turca Yagnur, "também para nós, que somos as três emigrantes aqui, mais desconfiança, politicas mais duras de emigração, menos liberdade para circular e trabalhar. Ou seja, tudo ao contrario do que é (era?) a ideia de uma Europa próspera, global e de paz. E, claro, agora a Turquia nunca entrará na UE".
"Mas são todos bem-vindos no meu pais", diz a alemã irónica Sophie a citar uma notícia que diz que os emigrantes que vêm para a Europa, depois de Londres, preferem a cidade de Berlim. "Bom, nunca nos faltará a mão de obra barata", diz ela a rir. "E depois, se o centro financeiro da City desaparecer daqui, alguém vai lucrar, ou nós ou os franceses, não é?" - e Alienor diz "bof" e põe os olhos a revirar.
E agora, como se sai daqui? "O divórcio", diz a francesa, "não sabemos se é amigável ou litigioso. Mas a UE sente-se ofendida. É como a mulher enganada que só quer correr com o marido, que é o britânico e é o traidor".
Nem o equatoriano tinha visto tanto demagogia junta
Juan Francisco Simon, 27 anos, equatoriano, também a tirar Leis, estava posto sozinho e em sossego na bela biblioteca da LSE. Ele diz uma coisa interessante e singular, diz que nos dias do referendo se sentiu completamente em casa. "Meu Deus! Nunca vi tanta demagogia, manipulação e burla de uma vez só. A campanha do Brexit parecia mesmo uma campanha sul-americana!".
Ele confessa-se baralhado e talvez triste - "como é que este grande país, com o poderio e passado imperial que já sabemos, hipotecou assim o futuro dos seus filhos? Não estou a falar por metáforas, isto é real: a juventude de hoje daqui, que não por acaso votou maioritariamente para continuar na UE, tem o seu futuro arruinado. Obviamente que tudo vai piorar, politica e socialmente, e o efeito, que agora é um dominó em marcha, pode ser devastador. É muito mau: o Reino Unido vai ficar mais pequeno, mais fechado e pode até cair na desintegração - os escoceses continuam a falar num referendo para a sua independência do Reino Unido [o Reino é constituído por quatro países: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte] e isso, que era até à semana passada absolutamente impensável, impensável, pode mesmo suceder. Mas, como "diabolos", é que isto aconteceu assim?".
O Reino deve muito à diversidade emigrante, diz o Juan
Obviamente que aqui há um problema de distribuição de riqueza, concorda Juan, em que "os urbanos vivem bastante bem e os rurais têm cada vez menos oportunidades, mas não resolvem nada dinamitando-se uns aos outros, nem é com a criação de mais um problema que se resolve ou esquece o problema anterior. Isso seria como partir propositadamente uma perna para esquecer que temos um braço a doer".
Por que se lançaram, então, Juan, os bretões nesta clara escuridão que rompe a unidade e estabilidade de toda a Europa? O sul-americano do Equador responde imediatamente e responde como os outros que são europeus: "Numa palavra, emigrantes. Aparentemente estavam fartos que a UE lhes dissesse que têm que os continuar a acolher e subsidiar. Não quiseram, querem fechar-lhes a torneira. Esquecem-se talvez que muito do que o Reino Unido hoje é, é assim porque o deve justamente aos emigrantes, os indianos, os asiáticos, os latinos, e sim, também os de Leste, porque foi com a boa exploração dessa diversidade que o Reino Unido é hoje o grande pais que é".
E depois os ingleses tiveram outro humilhante Brexit
Sete horas depois do JN ter falado com Scott Fornman, o jovem arguto inglês da London School of Economics (foi difícil encontrar um no meio da mais de centena e meia de nacionalidades que frequenta a LSE), a Inglaterra foi mesmo eliminada do Europeu de futebol. 2-1 frente à Islândia, coisa que eles consideraram uma real humilhação. Joe Hart, o guarda-redes, assumiu o seu frango mal passado; Roy Hodgson, o mal-amado treinador, já se demitiu ("Au Royvoir", titulou o bestial The Sun). Scott tinha dito que queria mesmo perder e a selecção dos Três Leões fez sua aquela gélida vontade.
Depois de eu ter visto o jogo rodeado de cómicos e burlescos e ruidosos bretões num café de Kensington (no futebol somos todos iguais perante a beleza, a bestialidade e a comiseração; estes daqui só têm uma diferença: os seus copos de cerveja são infinitamente mais compridos), fiquei a pensar na dose da sua aflição: em menos de uma semana, eles foram atirados borda fora da Europa uma vez e agora outra vez, ambas sem contar. A tristeza do orgulhosamente sós há-de ser agora mesmo uma coisa cavalar.
