Todos têm conflitos internos, israelitas e palestinianos, com diferenças de modo e conjugação democrática; mas todos preconizam o problema no Outro e na ameaça da diferença - política, administrativa, religiosa -, que vem do exterior, de lá da fronteira deles. Ódio, com graus de maior ou menor visibilidade ao longo de um século, sempre o ódio a uni-los.
A guerra sobre a Faixa de Gaza, iniciada há uma semana por Israel para travar o Hamas e os seus rockets islâmicos, não será mais do que apenas outro ponto numa cronologia de pavor que não termina aqui, afastando ainda mais aquilo que árabes e judeus necessitam da sua oposição: um acordo de paz e sustentabilidade - e a solução de dois estados, que terminantemente instale a separação entre Israel e a Palestina. Só com essa coexistência, como prova a tortuosa linha de factos desde a década de 1920, é que a região encontrará durabilidade na sua inglória necessidade.
A Faixa de Gaza, já muito menos do que um soundbyte sem sentido, gasto de tanto uso, reduzido à falta de significado tantas as vezes que entra da mesma forma moribunda pela actualidade ocidental adentro, é apenas só mais uma entrada dos desequilíbrios entre Israel e a Palestina: Israel ataca massivamente e disponibiliza vídeos dos bombardeamentos no Youtube; os palestinianos do Hamas, que controlam Gaza desde 2007, assumindo a confrontação dura que o Fatah rejeitou, respondem com apelos à Terceira Intifada, marcham em massa pelo dia da cólera. Com pedras contra canhões.
Os devastadores ataques aéreos de Israel que hoje vivemos - é a maior operação militar em Gaza desde a Guerra dos Seis Dias, de 1967 -, conseguirão realmente enfraquecer o Hamas, ao ponto de lhe diminuir a imorredoira militância? A resposta deverá muito a essa improbabilidade, mas só isto é certo como a cegueira de Sansão: a paz e a sua efectiva existência estão cada vez mais longe daquele território de Deus.
A Faixa de Gaza é um rectângulo ao longo da costa do Mediterrâneo, encaixado entre Israel e o Egipto, a quatro mil quilómetros do Porto. Possui a mais alta densidade populacional do mundo, com uma média superior a duas mil pessoas por cada quilómetro quadrado. A maior parte dos 1,4 milhões de residentes são refugiados palestinianos, que vivem, há décadas, precários, em aquartelamentos de campos de refugiados. Consequentemente, a maioria está no limiar da pobreza: 80% registados pela ONU em 2007, número que não pára de agravar.
A complicada história administrativa de Gaza, e da sua gestão política, é, nesta altura, a face mais visível de um conflito bruto e ferino, com tensões políticas e hostilidade aberta entre árabes e israelitas que nasceu no oriente próximo há um século, com o fim do mandato britânico na Palestina. Agudizou-se em dois períodos cruciais: na revolta árabe de 1936-39 e na guerra de 1948, que levou à proclamação de independência de Israel, com a atribuição de Jerusalém como capital. Simbolicamente, a cidade, que é o palco fundamental das narrativas religiosas tanto para os judeus como para muçulmanos, é, ela mesma, o conflito aberto, dividida em débeis fronteiras de desconfiança. A provocação, e a não aceitação da diferença, traduzem-se também aqui, na importância da representação dos seus símbolos: de um lado de Jerusalém há escavações palestinianas para construções no Monte do Templo, nobre santuário dos muçulmanos; mas a obra ameaça a estabilidade do Muro das Lamentações, local santo de peregrinação para judeus. Mesmo divididos, ambos os locais são igualmente relevantes para os dois povos, com diferenças religiosas de interpretação.
O estatuto de Jerusalém, cidade que se contorce em divisões entre os seus 700 mil habitantes - 470 mil dos quais são judeus e vivem na parte Oeste da cidade; os restantes 230 mil muçulmanos acostam na zona Este - é, de resto, um de seis pontos cardeais que apontam o estatuto final e a resolução de um conflito que terá obrigatoriamente que passar pela aceitação mútua de dois estados e de vizinhos. Para lá de Jerusalém, símbolo capital, israelitas e palestinianos terão que se entender sobre mais cinco assuntos, enunciados nas negociações de Annapolis, em Novembro de 2007, sob a égide de George W. Bush: estatuto dos refugiados (711 mil expulsos do território que Israel assumiu em 1948; hoje quatro milhões, segundo a ONU); povoamentos israelitas no território que integra a Palestina (sobretudo na Cisjordânia, onde residem cerca de 3500 israelitas, mas também em Gaza); segurança das fronteiras (sem a Cisjordânia, Israel ficará a menos de 20 km do seu ponto mais estreito, onde é maior a densidade populacional); controle de fronteiras (Israel demanda administração sobre as passagens fronteiriças entre os territórios palestinianos e a Jordânia e o Egipto, assim como direito de controlar importações e exportações); e, finalmente, a divisão de recursos (gás, petróleo) e de água (Israel extraí a partir de poços situados na Palestina, mas, por outro lado, também distribui água para a Cisjordânia, onde habita uma maioria de dois milhões de palestinianos).
Intrincado, e insanável por íntegra diferença de crença, o conflito que afasta palestinianos de israelitas, conhece desde há uma semana um novo ponto na sua dolorosa cronologia: o massivo ataque de Israel à Faixa de Gaza, que na primeira semana causou 400 mortos entre a população islâmica, com menos de uma dezena para o lado israelita.(Ler mais noticiário em Mundo, página 24).
Reclamação territorial substantiva, a Faixa de Gaza ganhou premência nas duas últimas décadas, especialmente a partir de 1993, com o Processo de Paz de Oslo: o território é entregue à recém-criada Autoridade Palestiniana, formando uma asa da nascente Estado Palestiniano, juntamente com a Cisjordânia e um potencial corredor terrestre entre os dois. Yasser Arafat, presidente da Autoridade Palestiniana,e líder do movimento Fatah, governava ambas as regiões, mas, com o passar do tempo, ficou claro que a sua influência era maior na Cisjordânia do que em Gaza, onde crescia o radicalismo da necessidade de enfrentar Israel. O Hamas, denunciado pelos EUA como grupo terrorista - mas que ganharia as eleições legislativas palestinianas de 2006 -, acentua a sua popularidade na Faixa de Gaza, sobretudo devida à sua postura hipermilitante e, com alcance mais prático, pelos serviços sociais que providencia à população, que vive debaixo de embargue controlado por Israel, abaixo do limiar da pobreza.
Em Setembro de 2005, o território viveu um momento chave: o primeiro-ministro israelita da altura, Ariel Sharon, aplica a retirada unilateral de tropas e civis israelitas de Gaza, abrindo a hipótese histórica de vermos aparecer o primeiro território em mãos totalmente palestinianas. Israel, no entanto, manteve um apertado controle de todas as fronteiras e continuou a efectuar raids sobre a região, controlando ainda mais o espaço aéreo.
Em Janeiro de 2006, após a morte de Arafat, recrudesce o conflito interno entre palestinianos, e o Hamas, apoiado numa maior visibilidade da sua linha radical, vence, com surpresa para o Ocidente, as eleições parlamentares, impondo-se ao Fatah, liderado por Mahmoud Abbas, que sucedera a Arafat como presidente. É uma nova fase na estremecida história de Gaza: em Junho de 2007, numa rápida acção de milícia que provocou 100 mortos, homens armados do Hamas subjugam as forças do Fatah e assumem controle de Gaza, situação que perdura até hoje. Desde esse período em que tomou conta de Gaza, o Hamas já terá lançado, com sucesso, 1400 rockets sobre Israel e 2800 morteiros. Progressivamente, Israel, que sempre se recusara a reconhecer o governo do Hamas, aperta ainda mais as fronteiras de Gaza, agravando as já difíceis possibilidades de circulação de pessoas e a entrada de bens alimentares.
Em meados de 2008, Israel e o Hamas, pressionados internacionalmente, pareciam preparados para alcançar alguma forma de acomodação, declarando uma espécie de trégua de seis meses, que nunca chegaria a ser formalmente definida. O objectivo era administrativo e político, com alcance interno e projecção para o exterior: pôr termo ao lançamento de rockets contra Israel, não só aqueles expelidos a partir das fileiras do próprio Hamas, mas também de outros grupos operativos da Faixa de Gaza, incluindo a Jihad Islâmica e as desafiadoras Brigadas de Mártires al-Aqsa. O controle substancialmente efectivo, quase não escapavam rockets, mas, em troca, não houve o prometido aumento de 25% nos envios de bens por parte de Israel, que alegava nunca terem cessado totalmente os disparos sobre os seus civis.
Depois de um lapso de tréguas em 19 de Dezembro de 2008, os ataques com rockets aumentaram progressivamente, levando ao global contra-ataque israelita começado a 29 de Dezembro.
