Com indignação e apelo à união, europeus rejeitam tarifas de Trump devido à Gronelândia

Manifestação em Nuuk, capital da Gronelândia, contra tomada do território por parte dos EUA.
Foto: Alessandro Rampazzo / AFP
Líderes europeus condenaram este sábado o anúncio de Donald Trump de que produtos de oito países que estão a participar de exercícios conjuntos da NATO na Gronelândia sofrerão uma taxa alfandegária de 10% a partir de fevereiro e de 25% a partir de junho. A pressão de Washington provocou condenações, apelos de união no Velho Continente e alertas de que isto poderá prejudicar os laços da Aliança Atlântica.
O ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, disse estar "surpreendido" com a ameaça do presidente norte-americano de aumentar tarifas sobre oito países europeus caso a Gronelândia não seja "vendida integralmente" aos Estados Unidos.
"O objetivo de reforçar a presença militar na Gronelândia, ao qual o presidente se refere, é precisamente aumentar a segurança no Ártico", disse à agência France-Presse (AFP) Rasmussen, após se ter reunido na quarta-feira com o chefe da diplomacia da Gronelândia, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio. "Estamos em contacto próximo com a Comissão Europeia e com os nossos outros parceiros sobre o assunto", acrescentou.
União Europeia: "Prejudicariam relações transatlânticas"
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, divulgaram uma declaração conjunta. "As tarifas prejudicariam as relações transatlânticas e poderiam levar a uma perigosa espiral descendente", escreveram numa publicação nas redes sociais.
Territorial integrity and sovereignty are fundamental principles of international law. They are essential for Europe and for the international community as a whole.
- António Costa (@eucopresident) January 17, 2026
We have consistently underlined our shared transatlantic interest in peace and security in the Arctic, including...
"A Europa continuará unida, coordenada e empenhada em defender a sua soberania", acrescentaram os líderes de Bruxelas. "A UE manifesta a sua total solidariedade com a Dinamarca e o povo da Gronelândia. O diálogo continua a ser essencial e estamos empenhados em dar continuidade ao processo iniciado na semana passada entre o Reino da Dinamarca e os EUA", concluíram.
França: "Nenhuma intimidação ou ameaça nos influenciará"
"As ameaças tarifárias são inaceitáveis e não têm lugar neste contexto. Os europeus responderão de forma unida e coordenada se forem confirmadas. Garantiremos o respeito pela soberania europeia", escreveu o presidente francês, Emmanuel Macron, na rede social X (antigo Twitter). "Nenhuma intimidação ou ameaça nos influenciará, nem na Ucrânia, nem na Gronelândia, nem em qualquer outro lugar do mundo", afirmou o líder do Eliseu, acrescentando que a França "está comprometida com a soberania e a independência das nações, na Europa como em qualquer outro lugar".
France is committed to the sovereignty and independence of nations, in Europe and elsewhere. This guides our choices. It underpins our commitment to the United Nations and to its Charter.
- Emmanuel Macron (@EmmanuelMacron) January 17, 2026
It is on this basis that we support, and will continue to support Ukraine...
"Isso orienta as nossas escolhas. Isso sustenta o nosso compromisso com as Nações Unidas e a sua Carta", acrescentou. Por essa razão, Paris apoia e "continuará a apoiar" a Ucrânia e, pelo mesmo motivo, decidiu "participar nos exercícios iniciados pela Dinamarca na Gronelândia". "Mantemos esta decisão. Isto também porque a segurança do Ártico e das fronteiras da nossa Europa estão em causa", argumentou Macron.
Reino Unido: "Completamente errado"
"Impor tarifas aos aliados por defenderem a segurança coletiva dos membros da NATO é completamente errado. É claro que iremos tratar este assunto diretamente com o Governo norte-americano", afirmou o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, em comunicado
Our position on Greenland is very clear - it is part of the Kingdom of Denmark and its future is a matter for the Greenlanders and the Danes.
- Keir Starmer (@Keir_Starmer) January 17, 2026
We have also made clear that Arctic Security matters for the whole of NATO and allies should all do more together to address the threat...
"A nossa posição sobre a Gronelândia é muito clara: faz parte do Reino da Dinamarca e o seu futuro é uma questão que diz respeito tanto aos gronelandeses como aos dinamarqueses", destacou. "Também deixámos claro que a segurança no Ártico é uma questão que diz respeito a toda a NATO e que os aliados devem trabalhar mais em conjunto para enfrentar a ameaça da Rússia em diferentes partes do Ártico", acrescentou o líder trabalhista.
Suécia: "Questão europeia"
"Não nos deixaremos intimidar. Apenas a Dinamarca e a Gronelândia decidem sobre assuntos que lhes dizem respeito. Defenderei sempre o meu país e os nossos vizinhos aliados", afirmou o primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, numa mensagem enviada à agência France-Presse, sublinhando que se tratava de "uma questão europeia".
"A Suécia está atualmente a manter intensas discussões com outros países da UE, a Noruega e o Reino Unido para encontrar uma resposta comum", acrescentou.
Taxa de 10% que pode chegar a 25%
O presidente norte-americano, Donald Trump, disse este sábado que vai cobrar uma taxa de importação de 10%, a partir de fevereiro, sobre mercadorias de oito países europeus, devido à oposição ao controlo dos Estados Unidos sobre a Gronelândia. Trump anunciou que a Dinamarca, a Noruega, a Suécia, a França, a Alemanha, o Reino Unido, os Países Baixos e a Finlândia enfrentarão a tarifa, que seria elevada para 25% a 1 de junho, se não for assinado um acordo para a "compra completa e total da Gronelândia" pelos EUA.
O presidente norte-americano insiste há meses que Washington deve controlar a Gronelândia, um território semiautónomo da Dinamarca, membro da NATO, e disse no início desta semana que qualquer coisa menos do que a ilha ártica estar em mãos americanas seria inaceitável.
O recado de Trump surge após uma reunião, na Casa Branca, entre o vice-presidente norte-americano, o chefe de Estado dos EUA, e os chefes da diplomacia norueguesa e gronelandesa, na quarta-feira. No dia seguinte, a primeira-ministra de Copenhaga, Mette Frederiksen, admitiu que um "desacordo total" em relação à Gronelândia permanecia.
