
Celebração na Colômbia pela detenção de Maduro
Foto: EPA
Donald Trump garante que controla a Venezuela, mas, em Caracas, ontem tomou posse um novo Parlamento alinhado quase a 100% com Maduro e a antiga vice do agora prisioneiro dos EUA prestou juramento enquanto presidente interina. Com esta indefinição, e Delcy Rodríguez aos comandos do país, a diáspora venezuelana que celebrou a queda de Nicolás Maduro aguarda agora um sinal para saber se pode regressar a casa.
"Nestas circunstâncias, ninguém vai correr para casa", explicou à agência AFP Ligia Bolivar, socióloga venezuelana e ativista de direitos humanos que vive na Colômbia desde 2019."Não houve mudança de regime na Venezuela, não há transição", disse, contrariando a tese de um diplomata norte-americano, que descreveu "um novo amanhecer".
Para alguns dos oito milhões de venezuelanos que fugiram do país ao longo da última década de ruína económica e repressão, a alegria de ver Maduro ser levado a um tribunal de Nova Iorque foi temperada pelo conhecimento de que o regime aguentou o choque de perder o líder.
A notícia da detenção de Maduro provocou cenas de júbilo, mas, embora muitos tenham dito que sonhavam regressar à terra natal, deixaram claro que não tencionavam fazer já as malas. A maioria citou a economia do país como uma razão para continuar a trabalhar no estrangeiro, mas também o medo do aparelho de segurança da Venezuela, apontando para os paramilitares que percorreram as ruas de Caracas no sábado para reprimir qualquer pessoa que se alegrasse com a destituição de Maduro.
Do lado de fora do consulado venezuelano em Bogotá, onde estava na fila para renovar o passaporte na segunda-feira, Alejandro Solorzano, 35 anos, ecoou essa visão."Tudo continua na mesma", disse ele, referindo-se à decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de trabalhar com o governo de Maduro em vez da oposição democrática.
Manter a estrutura do Estado
A antiga vice de Maduro, Delcy Rodriguez, foi empossada como presidente interina na segunda-feira, tornando-se a chefe interina de uma administração que ainda inclui o ministro do Interior de linha dura Diosdado Cabello e o poderoso ministro da Defesa Vladimir Padrino Lopez. Cabello, em particular, é uma figura de pavor para muitos venezuelanos, depois de ter comandado uma repressão aos protestos pós-eleitorais em 2024, em que cerca de 2.400 pessoas foram presas.

Muitos venezuelanos ficaram particularmente chocados com a decisão de Trump de afastar a líder da oposição Maria Corina Machado, laureada com o Prémio Nobel da Paz, da transição. A União Europeia exigiu na segunda-feira que qualquer transição inclua Machado e o seu candidato substituto nas eleições de 2024 que Maduro é acusado de roubar, Edmundo Gonzalez Urrutia.
Luis Peche, um analista político que sobreviveu a um ataque a tiros em Bogotá no ano passado, que se suspeita ter sido um golpe político, também defendeu uma transição negociada. "Temos que ver isso como um processo", disse Peche à AFP, referindo-se à transição da Venezuela. "Ainda é preciso que parte do aparato estatal permaneça", disse ele.
Tamara Suju, uma importante especialista em direitos humanos venezuelana radicada em Espanha, disse que manter o mesmo elenco contaminado no comando era um mal necessário - a curto prazo.
"É com eles que a administração Trump está a negociar a transição, porque não há outra maneira de o fazer", disse ela a um rádio espanhola, prevendo que acabariam por ser forçados por Washington a cair sobre as suas espadas.
Corina agradece a Trump

A líder da oposição da Venezuela, María Corina Machado, agradeceu ao Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pelas "ações valentes" que levaram à captura do líder venezuelano, Nicolás Maduro.
Durante uma entrevista ao apresentador Sean Hannity, na Fox News, Machado recordou que, em outubro, dedicou a Trump o Prémio Nobel da Paz que lhe foi atribuído. Machado salientou que teve de deixar a Venezuela em segredo para viajar até Oslo para receber o galardão, embora tenha chegado demasiado tarde para assistir à cerimónia oficial.
A líder da oposição declarou que planeia regressar à Venezuela o mais rápido possível e afirmou que não falou com Trump desde a extração de Maduro de Caracas pelos Estados Unidos.
Machado disse ainda que a oposição que lidera transformaria a Venezuela num centro energético para as Américas, restabeleceria o Estado de direito para garantir a segurança do investimento estrangeiro e facilitaria o regresso dos venezuelanos que, segundo diz, fugiram do país desde que Maduro chegou ao poder, em 2013.
A líder da oposição indicou que o movimento que representa alcançaria "mais de 90% dos votos" em eleições livres e justas.
Donald Trump recusou-se publicamente a respaldar María Corina Machado, dizendo, no fim de semana, que esta não tem apoio suficiente na Venezuela para liderar o país.
