
O Fantasma de Kiev foi um dos mitos criados na guerra entre a Ucrânia e a Rússia
Twitter/Poroshenko
O confronto entre Rússia e Ucrânia está a mostrar o impacto que as redes sociais e as "fake news" conseguem ter num conflito militar. A disseminação de informação falsa pode ter um grande impacto na opinião pública e começa a revelar-se como mais uma estratégia dos países envolvidos. Se no passado os repórteres tinham dificuldade em cobrir um cenário de guerra, nos dias de hoje é muito fácil criar um jornalista falso ou simular vídeos e histórias que facilmente se tornam virais.
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Vivemos atualmente na era digital, onde a informação pode ser partilhada praticamente ao minuto e rapidamente partilhada em todo o Mundo. No entanto, os pontos negativos são bem conhecidos devido ao elevado número de notícias falsas que podem ser facilmente disseminadas. Mais perto ou longe de nós, vivemos também um período de guerra como nunca antes tínhamos visto: as redes sociais transformaram a forma como a guerra pode ser difundida, algo que nunca tinha acontecido no passado, com vídeos militares a serem gravados no Tik Tok e centenas de imagens a correrem a Internet graças às redes sociais.
A possibilidade de qualquer pessoa utilizar as diversas plataformas digitais para espalhar a informação que quiser torna difícil verificar a veracidade das mesmas. Numa altura de guerra, a propaganda pode ser usada para vários efeitos: espalhar o medo ou fazer a população acreditar numa realidade que não existe. Pode ser do interesse tanto da Ucrânia como da Rússia convencer as pessoas que estão em superioridade ou criar cenários fictícios para influenciar a opinião pública. Damos aqui alguns exemplos.
O Fantasma de Kiev
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O caso mais mediático de um episódio que não correspondeu à realidade foi o famoso Fantasma de Kiev. Na passada sexta-feira, um vídeo tornou-se viral no Twitter. Nele, mostrava-se alegadamente um caça ucraniano a derrubar vários aviões russos e este piloto mistério rapidamente foi considerado um herói nacional. O exército ucraniano informou que esta personagem tinha abatido cinco aviões e um helicóptero russo em Luhansk e os seus feitos foram ainda mais exacerbados pelo antigo presidente da Ucrânia Petro Poroshenko. Na mesma rede social, escreveu que o Fantasma de Kiev "aterroriza os inimigos e deixa os ucranianos orgulhosos". "Tem seis vitórias contra os pilotos russos. Com defensores assim poderosos, a Ucrânia vai definitivamente vencer", escreveu como legenda de uma imagem do alegado piloto.
Porém, os vídeos partilhados deste "herói" são afinal... de um videojogo. A empresa Eagle Dynamics, criadora do Digital Combat Simulator, um simulador de voo, confirmou à agência Reuters que as imagens partilhadas eram trechos do jogo e não reais. A disseminação da informação verdadeira foi em menor escala que a falsa, tendo criado nas pessoas uma ideia de um piloto ucraniano que estava a ser um grande patriota, mas afinal parece mais ter sido um exemplo da propaganda de um país em relação à guerra.
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A ilha de Zmiinyi
Outra história que captou a atenção do mundo foi a suposta coragem de 13 militares ucranianos na ilha de Zmiinyi, no Mar Negro. Estes ficaram cercados por um navio russo, que sugeriu que se rendessem. Num vídeo partilhado nas redes sociais, pode-se verificar os ucranianos a responder "vão-se fo***" e a ser disseminado como um ato de patriotismo, de um conjunto de pessoas sem medo das repercussões do adversário.
A morte destes militares foi dada como praticamente certa (a informação inicial, de resto, foi dada pelo governo ucraniano), tendo criando assim uma imagem heroica destes soldados. Porém, esta segunda-feira o Ministério dos Negócios Estrangeiros comunicou que estes homens, afinal, encontram-se vivos, desconhecendo-se o seu estado. É um bom exemplo de como um caso pode rapidamente originar uma bola de neve de informações falsas, naquilo que pareceu ser uma tentativa (mais uma) em criar histórias positivas dentro de um cenário negativo que é a guerra.
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Os temíveis chechenos
A desinformação pode também ser usada para causar medo no "adversário". No sábado foram partilhadas imagens de militares chechenos, conhecidos por serem implacáveis em tempos de guerra, que teriam recebido fotografias de soldados ucranianos a abater. Alegadamente, esta informação foi partilhada por canais de propaganda russa, nos quais se afirmava que foram mobilizados entre 10 mil a 70 mil militares da Chechénia para a Ucrânia.
Para Jean-François Ratelle, professor na Universidade de Ottawa e especialista em assuntos russos, a partilha destas imagens teve o propósito de criar efeitos psicológicos nos ucranianos, para espalhar o medo e passar a mensagem de que o exército checheno ia fazer jus à fama que tem e destruir a cidade de Kiev. No entanto, Jean-François Ratelle não acredita que isto será um cenário possível e a confirmação destas informações está ainda para chegar.
Inteligência bastante artificial
A propaganda russa já vem do tempo das eleições norte-americanas, em 2016, quando, alegadamente, foram criados sites para difundir informação falsa. Agora está a ser feito o mesmo na guerra da Ucrânia. No passado fim-de-semana, Facebook e Twitter removeram dezenas de contas que publicavam notícias falsas, supostamente pertencentes a jornalistas em Kiev e espalhavam a ideia de que a Ucrânia se estava a render e o governo tinha ideologias nazis, o mesmo discurso que levou Vladimir Putin a justificar a invasão.
As personagens principais desta história são Vladimir Bondarenko, blogger residente em Kiev que, curiosamente, odeia a Ucrânia, e Irina Kerimova, alegada chefe de Bondarenko. O único problema é que estas pessoas não existem, as fotografias foram criadas com recurso a inteligência artificial. São perfis falsos criados com o objetivo de difundir notícias falsas.
