"Escalada dramática". Rússia, China e Irão pedem diálogo entre Afeganistão e Paquistão

O Governo paquistanês declarou "guerra aberta" contra os talibãs, após uma onda de ataques
Foto: Samiullah Popal/EPA
Os governos da Rússia, China e Irão pediram esta sexta-feira ao Afeganistão e ao Paquistão que dialoguem para conseguir paz, após o início de um novo conflito bilateral.
O apelo dos três países surge depois de o Governo paquistanês ter declarado "guerra aberta" contra os talibãs, após uma onda de ataques das forças afegãs na quinta-feira, que levou Islamabade a lançar ataques aéreos contra a capital, Cabul, e outras cidades afegãs como Kandahar.
A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Sakharova, manifestou, num comunicado, a sua "preocupação" com a "escalada dramática dos confrontos armados" entre os dois países, que "envolvem unidades do exército regular, capacidades aéreas e armamento pesado", provocando "baixas de ambos os lados, incluindo civis".
"Apelamos ao Afeganistão e ao Paquistão, ambos nossos aliados, a abandonarem este confronto perigoso e a regressarem à mesa das negociações para resolver todas as diferenças por meios políticos e militares", declarou Sakharova.
A Rússia é o único país do mundo que reconheceu oficialmente o Governo talibã. Deixou de considerar o Estado Islâmico um grupo terrorista em abril de 2025 e recebe frequentemente delegações do Afeganistão.
Já a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Mao Ning, enfatizou que Pequim "está a acompanhar de perto a situação", durante uma conferência de imprensa.
"O Paquistão e o Afeganistão são vizinhos próximos e ambos são vizinhos da China. Como vizinha e amiga, a China está profundamente preocupada com a escalada do conflito e profundamente entristecida pelas vítimas que este causou", observou Mao Ning.
A porta-voz chinesa sublinhou que o seu país "apoia a luta contra todas as formas de terrorismo" e pediu que os dois lados "mantenham a calma e a moderação, resolvam adequadamente as suas diferenças e disputas através do diálogo e das consultas, alcançando um cessar-fogo o mais rapidamente possível para evitar mais sofrimento".
O diálogo "está em consonância com os interesses fundamentais de ambos os países e dos seus povos e ajudará a manter a paz e a estabilidade na região", referiu a responsável chinesa.
"A China tem estado a mediar [o conflito] entre o Paquistão e o Afeganistão através dos seus canais e está preparada para continuar a desempenhar um papel construtivo na redução das tensões e na melhoria das relações entre os dois países", argumentou Mao, observando que Pequim "prestará assistência aos seus cidadãos, se necessário", sem comentar, para já, a possibilidade de iniciar um processo de retirada.
Já o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, declarou nas redes sociais que "no mês sagrado do Ramadão, mês de moderação e fortalecimento da solidariedade no mundo islâmico, é apropriado que o Afeganistão e o Paquistão resolvam as suas diferenças no âmbito da boa vizinhança e através do diálogo".
"A República Islâmica do Irão está pronta para prestar toda a assistência necessária para facilitar o diálogo e reforçar o entendimento e a cooperação entre os dois países", acrescentou o ministro iraniano.
"Mais uma vez, apelo à calma e ao respeito pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos, em particular a proteção dos civis, nas atuais tensões entre o Paquistão e o Afeganistão, que infelizmente resultaram em violência", afirmou o relator especial da ONU para o Afeganistão, Richard Bennett, sublinhando "uma desaceleração imediata é essencial".
O ministro da Informação do Paquistão, Ataullah Tarar, declarou hoje que os ataques paquistaneses, parte da Operação "Ira da Verdade", mataram mais de 130 alegados combatentes talibãs, antes de sublinhar que "estima-se que haja muitas mais vítimas em ataques contra alvos militares em Cabul, Paktia e Kandahar".
O porta-voz dos talibãs, Zabihullah Mujahid, confirmou os bombardeamentos, embora tenha negado qualquer número de vítimas, depois de as autoridades afegãs terem afirmado que a sua onda de ataques na quinta-feira resultou na morte de mais de 50 soldados paquistaneses ao longo da Linha Durand - a fronteira de 2.640 quilómetros entre os dois países.
As hostilidades eclodiram dias depois de as autoridades afegãs terem denunciado os ataques aéreos paquistaneses perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, afirmando que os ataques mataram mais de uma dezena de civis.
Islamabade argumentou que os ataques aéreos visavam "campos terroristas e esconderijos" do Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP), conhecido como talibã paquistanês, e do grupo Estado Islâmico (EI), em resposta aos recentes ataques suicidas em solo paquistanês.
