
O número de imigrantes ilegais é sobrestimado
Foto: AFP
Estudo recente que sondou cidadãos de sete países da Europa dá conta de perceções falsas acerca do tipo de imigração nos respetivos territórios.
Os europeus ocidentais tendem a acreditar, erroneamente, que a maioria dos imigrantes está em situação irregular nos seus países. A conclusão é de um inquérito realizado pela YouGov, líder internacional de pesquisa de opinião, que visou os principais países da Europa Ocidental e que revela ainda uma forte oposição a qualquer aumento da imigração e um apoio expressivo à redução dos fluxos migratórios, incluindo através de deportações.
O estudo, divulgado no mês passado, sondou cidadãos do Reino Unido, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Espanha e Polónia, e mostra que a maioria dos inquiridos considera que "muitos" ou "alguns" imigrantes permanecem nesses países de forma ilegal, quando, na realidade, a imigração legal é largamente predominante.
As estimativas da população em situação irregular são substancialmente inferiores aos números oficiais de residentes nascidos no estrangeiro. Em França, por exemplo, existem 700 mil imigrantes ilegais no país, um número muito inferior aos mais de nove milhões de estrangeiros que aí residem legalmente, revelou recentemente o ministro do Interior, Laurent Núñez.
Segundo os dados, a Polónia, o único país da Europa Central incluído no inquérito, apresenta uma opinião pública dividida: 36% dos inquiridos acreditam que há mais imigrantes ilegais do que legais, enquanto 28% pensam o contrário e 22% consideram que as proporções são semelhantes.
Maioria defende "grande redução" da imigração
A pesquisa indica que a maioria ou a quase maioria dos inquiridos, variando entre 49% na Polónia e 60% na Alemanha, é favorável a uma "grande redução" do número de imigrantes autorizados a entrar nos territórios. Em todos os sete países analisados, cerca de metade dos participantes (entre 46% e 53%) defendeu um congelamento total das entradas migratórias, bem como a saída de um "grande número" de imigrantes recentes.
Entre 64% e 82% dos inquiridos opuseram-se a qualquer aumento significativo da imigração, e a maioria também rejeitou a manutenção dos níveis atuais, com exceção da Polónia e da Dinamarca, onde o apoio à estabilidade migratória superou a oposição.
Quando questionados sobre quem deveria ser obrigado a deixar o país, os inquiridos favoráveis à deportação indicaram sobretudo migrantes que "violaram as regras", pessoas que "vieram para reclamar benefícios" (78% a 91%), requerentes de asilo em situação irregular (73% a 85%) e indivíduos sem visto de trabalho válido a exercer funções não qualificadas (66% a 85%).
O apoio à expulsão de outros grupos em situação legal, como requerentes de asilo que seguem os procedimentos formais, estudantes estrangeiros e trabalhadores altamente qualificados, foi significativamente menor. Os médicos surgem como o grupo mais aceite.
Além disso, apenas entre 15% e 24% dos inquiridos que defendem deportações em massa apoiariam a expulsão de médicos com vistos de trabalho, o que representa cerca de 8% a 12% da população em geral. Para a YouGov, este valor corresponde a um "limite máximo aproximado do sentimento anti-imigração mais radical".
Economia pesa, mas não é decisiva
A sondagem sugere que os inquiridos compreendem que a redução da imigração legal implica custos económicos e sociais. Em geral, mostraram-se menos favoráveis à diminuição da imigração quando confrontados com possíveis impactos negativos nos serviços de saúde, no preenchimento de vagas qualificadas e na atração de talento.
Nesses cenários, a maioria preferiu manter a imigração. No entanto, menos inquiridos aceitaram argumentos como o aumento da base de contribuintes, a melhoria da economia em geral ou o cumprimento de obrigações humanitárias internacionais como razões suficientes para não reduzir os fluxos migratórios.
Espanha com melhor visão
Espanha destacou-se como o país com atitudes mais positivas, com 42% dos inquiridos a considerarem a imigração legal maioritariamente benéfica. França e Alemanha registaram as perceções mais negativas: 38% e 39%, respetivamente, afirmaram que mesmo a imigração legal teve efeitos negativos, contra 22% e 24% que defenderam o contrário.
Enquanto 68% a 81% dos inquiridos consideraram excessivos os níveis de imigração ilegal, a maioria dos franceses (52%) e alemães (57%) também afirmou que a imigração legal era demasiado elevada, opinião partilhada por 48% dos polacos e britânicos.
Além disso, a maioria dos inquiridos em França, Itália, Alemanha e Polónia consideraram que os migrantes legais não partilhavam os mesmos valores que a população local, e entre 49% e 57% afirmaram que estes não se estavam a integrar adequadamente.
A migração legal supera claramente a migração ilegal, mas isso não significa que a imigração deixaria de ser um problema se os europeus estivessem mais conscientes desse facto, concluiu a YouGov. Segundo o instituto, as preocupações com a imigração vão além de argumentos económicos e envolvem "ansiedades mais profundas relacionadas com identidade, integração e valores nacionais".
