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Um impostor que se fazia passar por príncipe saudita, com a cumplicidade de uma autoridade religiosa, conseguiu enganar destacadas figuras do Líbano, prometendo-lhes cargos políticos, relatou, esta quarta-feira, à agência France-Presse (AFP) uma fonte judicial familiarizada com a investigação.
Uma dúzia de figuras proeminentes, incluindo um antigo primeiro-ministro, antigos ministros e membros do parlamento, foram implicadas neste escândalo, que expôs a fragilidade de alguns políticos do país.
O suspeito, um mecânico chamado Moustafa al-Hesyane, e o seu cúmplice, o xeque Khaldoun Oraymet, foram detidos no final de 2025, e "a investigação está perto de ficar concluída", segundo um funcionário judicial, que pediu o anonimato.
"As informações disponíveis indicam que as operações de extorsão se limitaram aos detidos, sem qualquer indício do envolvimento de terceiros no caso", descreveu.
O mecânico, que imitava na perfeição o sotaque saudita, fez-se passar por príncipe e chegou ao ponto de dar ordens por telefone a várias personalidades, sobretudo dentro da comunidade muçulmana sunita, sobre posições políticas a adotar.
O dignitário religioso forneceu a "Abu Omar", como o falso príncipe se autointitulou, números de telefone e informações sobre figuras políticas e empresários que conhecia.
De seguida, o impostor, afirmando fazer parte do palácio real saudita, prometia-lhes que o reino apoiaria as suas nomeações para cargos de responsabilidade no Líbano em troca de dinheiro, segundo a investigação.
"Vários políticos com quem contactou compareceram como testemunhas e admitiram os factos", acrescentou o responsável judicial.
As testemunhas alegaram, no entanto, que transferiram dinheiro sob a forma de donativos humanitários a organizações não-governamentais (ONG) ou particulares, "e não para obter favores políticos", acrescentou.
A Arábia Saudita é uma potência sunita e desempenha tradicionalmente um papel dominante no Líbano.
No entanto, há alguns anos, retirou o seu apoio ao principal líder sunita, Saad Hariri, e desvinculou-se do país, acusando-o de estar sob a influência do grupo xiita Hezbollah, apoiado pelo Irão.
A comunidade sunita foi enfraquecida, particularmente pela decisão de Hariri de se retirar da vida política.
As relações com Riade melhoraram com a eleição do atual presidente, Joseph Aoun, e a nomeação de um primeiro-ministro reformista, Nawaf Salam, no início de 2025.
A interferência estrangeira é comum no Líbano, um país multiconfessional, onde comunidades com interesses divergentes procuram o apoio de financiadores externos.
