
O caso aconteceu em Valladolid
Foto: Igor Martins/Arquivo
Um tribunal de Valladolid, em Espanha, começou, na segunda-feira, a julgar 23 arguidos por um esquema de revenda de caixões numa funerária. Os caixões não chegavam a ser incinerados nas cremações, acabando por ser revendidos. O caso data de 2019.
Um ex-funcionário que trabalhou durante décadas na funerária El Salvador, em Valladolid, e que, seguindo ordens do chefe, integrou um esquema de venda de caixões usados, documentou os crimes em 26 cadernos, que agora servem de prova à investigação sobre o caso, divulgado pelo jornal espanhol "El Mundo". O antigo trabalhador, entretanto falecido, relatou que a funerária retirava os defuntos dos caixões antes de os incinerar, no momento da cremação, para depois os revender.
"Eles colocam-nos no forno [aos falecidos] e, quando os familiares se vão embora, tiram-nos de novo, porque não chegam a ligar os incineradores, apenas os ventiladores para fazer barulho e parecer que estão a incinerar. É tudo mentira", escreveu o ex-funcionário, identificado como Justo, numa das notas. Além dos caixões, segundo os apontamentos, far-se-iam ainda trocas de coroas e arranjos florais, que também eram reutilizados.
"Afirmo que todos os dados aqui registados e inscritos pela minha própria mão são verdade. E, portanto, assino-o para o caso de algum dia serem de interesse para qualquer questão", escreveu Justo, a 1 de janeiro de 1998, explicando o método de seleção para a troca de caixões. "C.Si" quer dizer que se tira o caixão para o chefe; "C. No" significa que não se troca.
Família enfrenta até 20 anos de prisão
O julgamento do caso arrancou na segunda-feira, dia 2, no tribunal provincial de Valladolid. Na próxima semana, vão começar a ser ouvidas as primeiras testemunhas (são 256 no total). Entre os 23 arguidos, está a família proprietária da funerária El Salvador e 19 funcionários, sendo que as figuras centrais do caso já morreram: Justo, o homem que denunciou as práticas ilegais, foi encontrado enforcado no pátio de casa em 2024, com 73 anos; e o proprietário da funerária, Ignácio Morchón, faleceu em outubro de 2022 de causas naturais. Ainda assim, a esposa de Ignácio, Maria del Rosario V.L., e os seus três filhos, Ignacio, Laura e Maria del Rosario, vão a julgamento. O Ministério Público espanhol pede um total de 20 anos de prisão para cada um.
Segundo o jornal "El Español", a defesa da família Morchón pediu esta segunda-feira a anulação do processo devido a irregularidades. O argumento utilizado foi o de que a investigação policial em que a acusação se baseia foi feita fora da jurisdição do tribunal de instrução n.º 6, que na altura investigava um caso de possível extorsão do grupo El Salvador. O caso referido foi julgado em 2017 depois de uma denúncia feita pelo dono da funerária sobre Justo. O ex-funcionário ameaçava divulgar as fotos caso o chefe não lhe desse grandes quantias monetárias, mas acabou por ser condenado por extorsão. No entanto, a denúncia iniciou a investigação policial que culminou neste caso.
A operação lucrativa do grupo El Salvador
Nas buscas e apreensões de 2019 à residência de Ignácio Morchón, foram encontrados quase um milhão de euros em dinheiro. O proprietário do grupo El Salvador justificou a quantia atribuindo-a ao desejo comum das pessoas mais velhas de terem dinheiro vivo e à falta de confiança em bancos.
Estima-se que as atividades presumivelmente fraudulentas tenham gerado lucros de cerca de 3,6 milhões de euros, apenas pelo valor dos caixões, e à volta de 380 mil euros pelos 3174 arranjos florais reutilizados. No total, estas alegadas operações da funerária podem ter gerado aproximadamente quatro milhões de euros, segundo o Ministério Público espanhol.
Justo ingressou na funerária através do cemitério privado presente na sua aldeia, Santovenia, e onde a maior parte das cremações eram realizadas, em 1995. Começou o seu registo através de fotografias analógicas e, à medida que a tecnologia avançava, trocou para meios digitais. Acabou por se reformar em 2015 e, descontente com o montante da sua reforma, considerou que deveria receber uma compensação financeira pelos lucros obtidos pelo chefe nas práticas ilegais. Começou a tentar chantagear o patrão, num caso que levou à sua condenação por extorsão e, agora, ao julgamento da funerária.
