
AFP
País dispõe de complexo subterrâneo para armazenar 335 milhões de metros cúbicos. Aposta nas renováveis como substituto do gás pode criar dependência da China
Portugal dispõe de gás natural suficiente para três meses de consumo, guardado no complexo do Carriço, no Pombal. Esta capacidade de armazenamento, possível devido à existência de seis cavidades a mais de mil metros de profundidade, pode aumentar consideravelmente se, entre outros, forem usadas os depósitos existentes no porto de Sines. Se a estas infraestruturas juntarmos os gasodutos que chegam a Portugal pelo Norte de África e por Espanha, o país não terá, defende o professor universitário Joaquim Góis, problemas relacionados com a falta de gás natural. Deverá, no entanto, alega o mesmo especialista, enfrentar uma escalada de preços causada pelo conflito na Ucrânia.
"Portugal tem uma capacidade relativamente grande para armazenar gás natural. Dará, sensivelmente, para três meses de consumo", garante o professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Para chegar a esta conclusão, Joaquim Góis lembra os 150 milhões de metros cúbicos de armazenamento existente nos depósitos à superfície existentes em Sines, mas sobretudo o complexo subterrâneo do Carriço.
Nesta infraestrutura foram criadas seis cavidades, a mil metros de profundidades, em 2014. Todas somadas, estas cavernas naturais, com cerca de 300 metros de altura e 170 metros de diâmetro, apresentam uma capacidade de armazenagem de 335 milhões de metros cúbicos. "São infraestruturas comuns em toda a Europa e as que existem em Portugal são geridas pela Rede Nacional de Energia e pela Galp e têm a sua capacidade completa em cerca de 80%", explica o docente de Engenharia de Minas.
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Segurança garantida
Estas cavernas foram construídas através de um processo de injeção de água, que fez derreter o sal existente no terreno, a que se seguiu a extração pelo mesmo orifício da salmoura. "Isto cria uma espécie de cilindro, que impede a fuga do gás", descreve Joaquim Góis. Segundo o especialista, o complexo do Carriço "é constantemente monitorizado" e dispõe de "uma válvula de segurança" a 50 metros de profundidade, que "fecha imediatamente o fluxo do gás" em caso de necessidade. "O risco é mínimo. Aliás, o projeto inicial previa a criação de 25 cavernas, o que também me parecia exagerado", assegura.
O complexo do Carriço é abastecido por um gasoduto ligado ao porto de Sines. É aqui que os navios carregados de gás liquefeito, oriundos dos Estados Unidos da América e da Nigéria, injetam a maior parte do gás natural consumido em Portugal. O restante chega ao país através dos gasodutos do Norte de África e de Vigo, em Espanha.
Renováveis causam dependência da China
"Não haverá o perigo de Portugal ficar sem gás devido à guerra na Ucrânia, mas o preço deverá ser afetado. A Rússia é um grande fornecedor de gás natural e se houver menor oferta o preço irá aumentar", esclarece Joaquim Góis.
O professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto alerta, ainda, para o perigo de "cair na armadilha" de trocar o gás natural pelas energias renováveis. "Para construirmos os painéis solares e alguns componentes das torres eólicas precisamos de terras raras, metais muito raros que são controlados pela China em 95%. Deixaríamos de ser dependentes da Rússia para sermos dependentes da China", avisa.
