
António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas
Foto: Sarah Yenesel/EPA
O secretário-geral da ONU apelou, esta quinta-feira, para um diálogo com o Irão, particularmente sobre a questão nuclear, visando evitar uma crise com "consequências devastadoras para a região".
"Condenamos veementemente a horrível repressão que ocorreu no Irão", afirmou António Guterres, numa conferência de imprensa na sede da organização em Nova Iorque. "Estamos a acompanhar as discussões em curso com preocupação e acreditamos ser importante estabelecer um diálogo para chegar a um acordo, particularmente sobre a questão nuclear, e assim evitar uma crise que poderia ter consequências devastadoras para a região", acrescentou.
As declarações de Guterres surgiram num momento em que o primeiro vice-presidente do Irão, Mohammad Reza Aref, avisou que o país deve preparar-se para a guerra, perante a ameaça dos Estados Unidos de usar a força militar contra a República Islâmica.
"Hoje, devemos estar preparados para a guerra. A República Islâmica do Irão nunca inicia uma guerra, mas se lhe for imposta uma, defender-se-á com força", afirmou Mohammad Reza Aref, citado pela agência de notícias iraniana ISNA.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou repetidamente usar a força, em resposta à violenta repressão dos protestos no último mês no Irão, e na quarta-feira exigiu também negociações sobre o programa nuclear iraniano, cujas instalações foram bombardeadas em junho pela aviação norte-americana e por Israel.
Em resposta, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araqchi manifestou disponibilidade para o diálogo, desde que livre de coações e ameaças, ao mesmo tempo que avisou que as forças armadas estão "com o dedo no gatilho" face à ameaça de ataque.
As ameaças do líder da Casa Branca foram acompanhadas pelo envio de uma força naval norte-americana, incluindo o porta-aviões Abraham Lincoln, que chegou à região do Golfo na segunda-feira com a escolta.
Na semana passada, as autoridades iranianas anunciaram que pelo menos 3117 pessoas morreram nos protestos ao longo de janeiro, números contestados por organizações não-governamentais de defesa dos direitos humanos, que alegaram estar em posse de dados que confirmam uma dimensão muito superior, a que somam dezenas de milhares de detidos.
O movimento de protesto, iniciado em 28 de dezembro contra o elevado custo de vida e desvalorização da moeda nacional, levou a um apagão de comunicações sem precedentes em todo o país por ordem das autoridades, e entretanto perdeu intensidade, mas prosseguem os relatos de detenções e de confissões encenadas na televisão.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, comentou, numa audição na quarta-feira na Comissão dos Negócios Estrangeiros do Senado em Washington, que o Irão está "mais fraco do que nunca", com a economia "em colapso", e, ao contrário do que acontecia no passado, o regime mostra-se incapaz de responder às reivindicações dos protestos.
