
Rusesabagina recebeu em 2005 do então presidente dos EUA, George W. Bush, a Medalha da Liberdade
EPA/SHAWN THEW
Paul Rusesabagina foi celebrizado por filme de 2004 que relata como salvou mais de 1200 pessoas do genocídio no Hotel des Mille Collines, em Kigali. Exilado na Bélgica, é acusado de financiar e liderar grupos terroristas.
A história de Paul Rusesabagina, ruandês da etnia hutu, começa com o casamento com uma tutsi. Seguiu carreira acima até chegar a gerente do melhor hotel do país para o grupo belga Sabena, já depois de os responsáveis belgas terem fugido do conflito inter-étnico que deu notoriedade ao minúsculo Ruanda.
Do alto do morro onde se ergue o Hotel des Mille Colines, acolheu 1268 tutsis e hutus moderados perseguidos por militares e milícias hutus num dos mais sangrentos genocídios da História, em 1994. Hollywood celebrizou o herói no filme "Hotel Ruanda", mas a política local começou a olhá-lo como traidor, porque, com o andar dos anos, se ergueu contra o presidente. Foi detido esta segunda-feira, em Kigali. Acusado de terrorismo.
O caso tem muitos contornos por explicar. Pendia sobre Rusesabagina um mandado internacional, de que a justiça da Bélgica, país onde estava exilado, diz ter tido conhecimento. O Ministério Público belga não foi, contudo, informado dos "detalhes sobre as circunstâncias" da detenção, que o congénere ruandês assegura ter sido fruto de uma cooperação internacional.
Os factos reportarão a 2018. O famoso hoteleiro é acusado de ter tentado mudar o regime ruandês, "fundar, liderar, financiar e operar grupos terroristas violentos, armados e extremistas" na região dos Grandes Lagos e cometido atos terroristas como incêndios, raptos e homicídios de inocentes desarmados no Ruanda.
Oposição a Kagame
Não há, ainda, notícia da defesa de Rusesabagina, que atraiu a fúria do regime ruandês desde que começou a apontar o presidente, o tutsi Paul Kagame, no cargo desde 2000, acusações de repressão da oposição. Em 2010, denunciou a detenção do opositor Victoire Ingabire e começou a designar o Governo de Kigali como uma ditadura contra a qual decidiu fazer campanha.
Na última reeleição de Kagame, avassaladora, falou em escrutínio "estaliniano". E vem alertando para o "genocídio" de hutus que fugiram para o então Zaire, atual República Democrática do Congo, designação que Kigali, que labora na árdua tarefa de sarar as escaras de 1994, repudia.
Na senda política, Rusesabagina fundou o Movimento Ruandês para a Mudança Democrática, classificado em Kigali como "grupo terrorista extremista", em conjunto com o seu braço armado, a Frente de Libertação Nacional que chegou a reivindicar ataques no sul do país. E é acusado por muitos de exagerar os feitos heróicos no Hotel des Mille Collines.
"Paul Rusesabagina, um herói? Os militares e os milicianos vinham beber copos com ele e ele exigia que pagássemos os quartos. É heróico exigir dinheiro, cheques ou notas de dívida a refugiados cujas famílias, lá fora, estão a ser massacradas?" Bernard Makuza estava no hotel, naqueles dias de 1994. Wellas Bizumuremyi também. Era funcionário e diz que o filme é uma mentira. Perdeu 35 familiares, entre eles a mulher e os seis filhos. Um herói? "O Hotel des Mille Collines. Devo-lhe tudo. Salvou-me a vida", admitia, no ano passado, ao "Le Monde".
