
Primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, em Pequim.
Foto: Carl Court / Pool / AFP
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, encontrou-se quinta-feira com o presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim, num momento que marca mais um país do Ocidente a reaproximar-se e a fechar acordos com a China. A manobra ocorre num cenário de maior instabilidade, com os EUA de Donald Trump a ameaçarem aliados com tarifas.
Após os líderes do Canadá, Finlândia, França e Irlanda, foi a vez do chefe de Governo do Reino Unido negociar com o gigante asiático, na primeira visita desde 2018, já que as relações esfriaram devido a preocupações de Londres com questões de segurança nacional e a situação política em Hong Kong.
"A China e o Reino Unido precisam de reforçar o diálogo e a cooperação, seja para manter a paz e a estabilidade mundiais, seja para promover as economias e os meios de subsistência de ambos os países", defendeu o chefe de Estado chinês. Xi salientou a necessidade de uma "visão de longo prazo" perante um contexto internacional "complexo".

Starmer e Xi (Foto: Carl Court / Pool / AFP)
Starmer considera a China um "ator vital no panorama global" e que ambos precisam de "construir uma relação mais sofisticada", em que se identifique "oportunidades de colaboração". "Gostaria de repetir um ditado chinês (...): procurar objetivos comuns, respeitando as diferenças", resumiu o primeiro-ministro britânico.
Desta forma, diversos acordos foram fechados, incluindo a cooperação no combate ao crime organizado transnacional e à imigração irregular, o estabelecimento de uma parceria nos serviços (com a possibilidade de um acordo comercial nesta área no futuro) e um aumento de exportações britânicas para a China. Temas como saúde, segurança alimentar e colaboração no ensino técnico foram abordados também.
O chefe de Governo britânico destacou ainda um "progresso muito bom" para um eventual corte nas tarifas chinesas sobre o whisky e para a isenção de vistos para os turistas do Reino Unido. Já a farmacêutica AstraZeneca prometeu investir 15 mil milhões de dólares (12,5 mil milhões de euros) na China até 2030.

Starmer nos Jardins Yuyuan, em Xangai, esta sexta-feira (Foto: Kin Cheung / Pool / AFP)
Já nesta sexta-feira, Starmer esteve em Xangai, a capital financeira da China, antes de ir para o Japão. A segunda parte da deslocação na China ficou marcada pelo comentário feito por Trump na noite de quinta-feira (já sexta-feira na Ásia), que alertou ser "muito perigoso" fazer negócios com Pequim.
O ministro do Comércio do Reino Unido, Chris Bryant, foi questionado pela estação pública britânica BBC sobre se acreditava que o líder da Casa Branca tinha errado com tais declarações. "Sim, ele está errado, e digo isto precisamente porque, além de tudo, o próprio afirmou na sua declaração que é amigo do Presidente Xi, e, pelo que percebi, o presidente Trump irá à China em Abril", ressaltou o governante.
"Corrida" para garantir acesso ao Gigante Asiático
"Há uma verdadeira corrida entre os chefes de Governo europeus para se reunirem com Xi Jinping", disse à agência France-Presse (AFP) Hosuk Lee-Makiyama, diretor do Centro Europeu de Economia Política Internacional. Isto é "motivado pela rivalidade interna para garantir o investimento e o acesso ao mercado antes das cimeiras China-EUA em fevereiro e abril", acrescentou.
Outros mercados também são visados, tendo a União Europeia, por exemplo, fechado acordos comerciais após décadas de negociações com a Índia e o Mercosul. Apesar disto, Lee-Makiyama afirmou que estes "são demasiado pequenos para sustentar as economias mais dependentes das exportações do Mundo, que estão na Europa". E, por isso, o Gigante Asiático é tão atraente.
"Metade do crescimento económico é gerado pelos Estados Unidos ou pela China", sublinhou o especialista, acrescentando que "os Estados Unidos dificilmente estão a abrir". E, mesmo que outros países queiram-se abrir, Washington não vê com bons olhos.

Primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, em Pequim (Foto: Jessica Lee / EPA)
Após a visita do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, a China, em meados de janeiro, Trump ameaçou impor uma taxa alfandegária de 100% sobre os produtos canadianos caso haja um acordo comercial entre Otava e Pequim. O chefe de Governo do Canadá tinha anunciado uma "nova parceria estratégica" com os chineses e um "acordo comercial preliminar, mas histórico" para diminuir as tarifas.
Maior mercado para o óleo de colza canadiano, a China deverá reduzir a tributação sobre o produto de 84% para 15%. Já o Canadá comprometeu-se em importar 49 mil veículos elétricos chineses com taxas preferenciais.
A imprevisível política tarifária de Trump sinaliza que "os Estados Unidos já não são um parceiro comercial fiável", frisou à AFP William Alan Reinsch, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, com sede em Washington. O especialista relembra que a redução de taxas e a diminuição de barreiras não tarifárias são "exatamente o que o Mundo tem vindo a fazer nos últimos 75 anos". "O caso atípico são os Estados Unidos."

