
Aparente normalidade nas ruas de Teerão
Foto: Abedin Taherkenareh/EPA
Cerca de três mil pessoas foram presas durante os protestos no Irão, segundo autoridades de segurança, um número que a organização de direitos humanos Iran Human Rights estima ser de até 20 mil. Esta sexta-feira, um clérigo iraniano exigiu a aplicação da pena de morte aos manifestantes detidos.
Cerca de três mil pessoas foram presas durante os protestos no Irão, entre elas "indivíduos armados, manifestantes violentos e membros de organizações terroristas", segundo autoridades de segurança locais citadas pela agência de notícias iraniana Tasnim.
Por seu lado, num novo relatório, a organização não-governamental Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, afirmou que até 20 mil pessoas foram presas nos protestos.
Hoje, um clérigo iraniano que liderou as tradicionais orações de sexta-feira em Teerão, exigiu a aplicação da pena de morte aos manifestantes detidos na repressão nacional em curso e ameaçou diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O sermão - que ilustra o endurecimento da linha dura no seio da República Islâmica e que foi transmitido pela rádio estatal iraniana - foi acompanhado por gritos de apoio da assistência, como "hipócritas armados devem ser mortos".
As declarações surgem num contexto em que Trump estabeleceu como "linhas vermelhas" para uma eventual ação militar norte-americana a execução de manifestantes e o assassinato de civis pacíficos no Irão.
Mohamed Khatami, nomeado pelo líder supremo, aiatola Ali Khamenei, é membro da Assembleia de Peritos e do Conselho dos Guardiães, dois dos principais órgãos do sistema político iraniano.
No sermão, o clérigo descreveu os manifestantes como "mordomos" do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e como "soldados de Trump", afirmando que os protestos tinham como objetivo a "desintegração do país".
"Devem esperar uma dura vingança do sistema", defendeu Khatami, dirigindo-se a Trump e a Netanyahu, acrescentando que "norte-americanos e sionistas não devem esperar paz".
No sermão, Khatami apresentou também os primeiros números globais divulgados pelo regime sobre os danos materiais causados pelos protestos. Segundo o clérigo, 350 mesquitas, 126 salas de oração e 20 outros locais sagrados foram danificados, assim como 80 residências de líderes religiosos responsáveis pelas orações de sexta-feira.
Khatami afirmou ainda que 400 hospitais, 106 ambulâncias, 71 veículos de bombeiros e outros 50 veículos de emergência sofreram danos, sublinhando a dimensão e a violência dos confrontos.
O Irão está a ser agitado por uma nova vaga de protestos desde 28 de dezembro, iniciada em Teerão por comerciantes e setores económicos afetados pelo colapso do rial, a moeda iraniana, e pela elevada inflação, alastrando-se depois a mais de 100 cidades do país.
Segundo dados divulgados na quarta-feira pela IHR, pelo menos 3428 pessoas foram mortas durante o movimento de protesto, com base em informações confirmadas diretamente pela organização ou com base em testemunhas e fontes médicas e de morgues. Estimativas de outras organizações apontam para um mínimo de 2637 mortos e acima de 12 mil.
Num outro comunicado, a Human Rights Watch (HRW) acusou as forças de segurança iranianas de "assassínios em massa", após a escalada dos protestos no país, e pediu à ONU que "convoque urgentemente" uma sessão especial do Conselho dos Direitos Humanos.
"Os assassínios em massa cometidos pelas forças de segurança iranianas desde 08 de janeiro não têm precedentes e recordam de forma contundente de que os governantes que massacram o próprio povo continuarão a cometer atrocidades até serem responsabilizados", disse a diretora de programas da HRW, Lama Fakih, citada num comunicado.
