
O restauro ficará pronto na Páscoa
Foto: Giuseppe Lami/EPA
O famoso fresco do "Juízo Final" de Miguel Ângelo, na Capela Sistina, está a ser alvo da maior renovação em mais de três décadas, para remover um resíduo esbranquiçado deixado pelos visitantes suados. O restauro da obra-prima do século XVI no Vaticano pretende trazer de volta à luz as cores vibrantes da pintura, que mede quase 14 metros de altura.
Os visitantes ainda podem entrar na Capela Sistina, no coração do Vaticano, durante o restauro, mas o fresco foi ocultado por um grande andaime coberto com uma reprodução da obra. A diretora dos Museus do Vaticano, Barbara Jatta, descreveu a camada branca que está a ser removida como "um pouco como uma catarata", durante uma visita guiada à imprensa sobre o projeto, que deverá estar concluído antes da Páscoa.

Segundo Jatta, a camada cobre "toda a superfície de 180 metros quadrados" da obra. Os Museus do Vaticano já tinham revelado que substância é "invisível a olho nu", apesar de ter "atenuado" as cores originais da obra. O fresco está a ser limpo com água destilada, através de uma camada de papel japonês, para remover a substância, identificada como lactato de cálcio.
"A transpiração aumentou nos últimos anos devido às alterações climáticas. Por causa da transpiração, produzimos ácido láctico, que se transforma em lactato de cálcio", disse aos jornalistas Fabio Morresi, chefe de investigação científica dos Museus do Vaticano.
Foram, entretanto, tomadas medidas para reduzir o número de visitantes presentes em simultâneo na Capela Sistina, local onde os cardeais se reúnem em conclaves fechados para eleger novos papas.
Obra monumental
Morresi descreveu a diferença no fresco antes e depois do tratamento como "dois mundos diferentes" e disse que trabalhar na obra-prima foi um processo "emocional". O "Juízo Final", pintado entre 1536 e 1541, é a peça central da Capela Sistina e está localizado mesmo atrás do altar.
Diz-se que o então Papa Paulo III ficou tão impressionado com a obra que se ajoelhou e pediu perdão divino quando a viu pela primeira vez. Das 391 figuras do fresco, muitas estão nuas ou seminuas, o que causou escândalo na época, levando a que fossem cobertas com panos pintados sobre a obra original, após a morte de Miguel Ângelo.
Alguns destes panos pintados foram removidos em 1994, durante o último grande restauro.

O atual projeto é patrocinado por doadores dos EUA e faz parte de uma grande renovação da Capela Sistina, iniciada em 2010. Normalmente, os trabalhos são realizados quando a capela está encerrada ao público e sem necessidade de andaimes, mas, segundo os funcionários, tal não foi possível para o "Juízo Final" devido à magnitude da obra.
Morresi disse que a restauração tinha um significado pessoal para ele, pois foi contratado em 1988, quando a última grande renovação da Capela Sistina estava apenas a começar, e agora está quase na idade de se reformar. "É maravilhoso... Há um pedaço de mim aqui", disse.
