
Passou um ano desde que Kamala Harris assumiu o cargo de vice-presidente
AFP
Vice-presidente prometeu um novo impulso para os Estados Unidos da América, mas após um ano de liderança é ainda mais impopular do que Joe Biden.
A expectativa sobre a vice-presidência de Kamala Harris era muito elevada, mas a popularidade do braço direito de Joe Biden tem vindo a cair a pique. O momento em que colocou a mão sobre a bíblia e jurou defender a Constituição dos EUA ficou marcado pelo facto ser a primeira mulher negra a assumir o cargo. Mas um ano depois da chegada ao poder, a democrata mostra-se apagada das decisões políticas.
No dia 20 de janeiro de 2022, a nova líder trouxe uma lufada de esperança para um país onde a justiça racial tem sido frequentemente ferida, mas uma sondagem da Suffolk University-USA Today mostra que a simpatia por Kamala Harris é ainda mais baixa do que a de Joe Biden. Enquanto a popularidade do presidente se encontra em 37,8%, a da vice-presidente está situada em 27,8%, precisamente menos dez pontos.
Após um ano de liderança democrata, a vice-presidente deixou de ser vista como uma provável substituta do presidente norte-americano, uma hipótese que pairava quando Biden, um dos líderes mais velhos da América, destronou Donald Trump.
Antes de ocupar o atual cargo, Kamala Harris, a advogada já tinha feito história noutros campos políticos, mas deu sinais de fraqueza quando, em 2019, disputou as primárias do Partido Democrata com a intenção de ser escolhida para as presidenciais e acabou por desistir. Mas o que se seguia viria a ser surpreendente: um convite de Biden.
Impreparação e insegurança
No primeiro pronunciamento público depois de ser eleita vice-presidente, a democrata mostrou-se motivada e prometeu trabalhar em prol do bem-estar dos americanos, mas doze meses volvidos há quem questione qual o papel que tem tido.
Em junho do ano passado, fez-se notar pelas piores razões, quando durante uma visita à Guatemala, pediu aos migrantes sem documentos que fossem para os Estados Unidos. "Não venham. Os EUA vão continuar a impor as nossas leis e a garantir a segurança nas fronteiras. Se vierem, vão ser enviados de volta", afirmou a democrata, que de imediato arrecadou inúmeras críticas de vários ativistas, sobretudo depois de elevar a questão migratória como uma das bandeiras da liderança que pretende construir.
Kathleen Parker, colunista do jornal norte-americano "The Washington Post", acredita que Harris não se encontrava preparada para o cargo. A especialista em política vai mais longe e diz que "nunca nenhum vice-presidente esteve tão mal preparado para o cargo", acrescentando que a escolha de Biden acaba por espelhar a própria fragilidade do mandato do presidente.
Esta tendência de impopularidade começa a traçar aquele que será o futuro de Kamala Harris, que parece estar longe da liderança dos EUA. Rui Henrique Santos, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, concorda com a falta de sustentabilidade política da governante afirmando que "o gabinete e o próprio exercício do cargo demonstram disfuncionalidade e impreparação".
Defensora das minorias e dos direitos humanos, Kamala não tem conseguido impor as convicções que a movem e isso também pode causar alguma insegurança à América. Com um presidente perto dos 80 anos, quem assumirá os comandos do país quando este se retirar? A resposta pode começar a ser desmistificada já este ano, altura em que ocorrem as eleições intercalares para o Senado.
Eleições
2022 será um ano decisivo para a política dos EUA
O ano que assinala o primeiro aniversário da liderança democrata, também fica marcado pela realização de eleições intercalares. A administração enfrenta uma popularidade muita baixa e isso faz com que "não tenha as ferramentas para estar no controlo dos fatores que trarão estabilidade", reflete Daniela Melo, professora na Universidade de Boston, Massachusetts. A especialista em política refere que as promessas do presidente dificilmente se poderiam cumprir com uma maioria tão curta no Senado: 50-50, com a vice-presidente Kamala Harris a desempatar para os democratas, e dois senadores democratas que votam frequentemente ao lado dos republicanos, Joe Manchin e Kyrsten Sinema. Um índice de popularidade tão baixo é mau sinal para o desempenho do partido nas eleições intercalares de 8 de novembro, que decidirão o controlo das duas câmaras do congresso. No entanto, a especialista frisou que "ainda muito pode mudar" até ao final do verão e a evolução da pandemia e da economia serão determinantes para perceber de que forma o sentimento público se irá traduzir nas urnas.
Iniciativas da vice-presidente
Ambiente
No início do ano, Harris apresentou um programa para a criação de 500 mil pontos de carregamento para carros elétricos em todo o país.
Ampliação de voto
Impulsionou um projeto de lei que quer fortalecer a supervisão das eleições em estados com um histórico de discriminação racial.
Direitos LGBTQ+
No ano passado, marcou presença numa marcha LGBTQ+, mostrando apoio a esta minoria.
