Libertar reservas serão "medidas paliativas" na maior crise do petróleo de sempre

Shenlong, de bandeira da Libéria, teve passagem autorizada pelo Irão e levou petróleo saudita para a Índia
Foto: Divyakant Solanki / EPA
Ceticismo com fim rápido do conflito foi repercutido em relatório da Agência Internacional de Energia, nesta quinta-feira.
Com um cenário de guerra que não parece atenuar-se tão cedo, a Agência Internacional de Energia (AIE) avisou que o Mundo enfrentará "a maior perturbação no fornecimento do mercado global de petróleo da História" e que medidas como a disponibilização das reservas estratégicas serão somente "paliativas". A subida do preço do petróleo, que chegou a ultrapassar 100 dólares o barril, não causa, todavia, preocupação ao presidente dos Estados Unidos, que argumentou que o país ganha "muito dinheiro" com as vendas.
O relatório da AIE aponta que a produção do crude diminuiu em pelo menos oito milhões de barris por dia, enquanto que a redução foi de dois milhões noutros produtos petrolíferos. Com o fecho do estreito de Ormuz, apenas 10% do volume pré-guerra passou pela rota marítima, que teve, em 2025, um fluxo médio de 15 milhões de barris diários - cerca de 20% do petróleo mundial.
"A libertação coordenada de stocks de emergência proporciona uma reserva significativa e bem-vinda, mas, na ausência de uma resolução rápida para o conflito, continua a ser uma medida paliativa", alertou a AIE. Visão similar é a de Stephen Innes, da gestora de fundos SPI Asset Management, ouvido pela agência France-Presse, que considera essa disponibilização de reservas o equivalente "a usar uma mangueira de jardim para apagar um incêndio numa refinaria".
Os recados surgem um dia depois de países como Alemanha, Japão e Portugal, além dos membros da própria AIE, terem anunciado a disponibilização de reservas estratégicas, numa tentativa de conter os aumentos dos preços.
Do lado iraniano, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros disse que Teerão permitiu a passagem de navios de alguns países. "No que diz respeito ao Irão, entendemos que os países que participaram na agressão não devem beneficiar de uma passagem segura pelo estreito de Ormuz", acrescentou, horas depois de dois petroleiros terem sido atingidos e incendiados perto do Iraque, na noite de quarta-feira.
EUA ganham "muito dinheiro"
"Os EUA são, de longe, o maior produtor de petróleo do Mundo, por isso, quando os preços sobem, ganhamos muito dinheiro", escreveu Donald Trump na rede Truth Social, frisando que o "maior interesse é impedir que um império maligno, o Irão, tenha armas nucleares". Já o secretário da Energia americano, Chris Wright, admitiu ainda que as Forças Armadas dos EUA "não estão preparadas" neste momento para escoltar petroleiros no Golfo.
As posturas de Washington e Teerão, com fortes declarações também do líder supremo, não geram otimismo para uma solução rápida para o conflito - ou pelo menos para um salvo-conduto a uma indústria tão estratégica.
Ataques em Teerão, Jerusalém, Beirute e Golfo
A troca de bombardeamentos continuou no Médio Oriente, tendo sido registadas explosões em Teerão, onde as forças israelitas atacaram postos de controlo instalados pelos paramilitares do Basij, milícia ligada à Guarda Revolucionária. Os hebraicos atacaram também o complexo de Taleghan, onde, alegam sem provas, o Irão desenvolveria armas nucleares.
Foram ouvidas explosões também em Jerusalém, após Israel ter detetado mísseis lançados a partir do Irão na madrugada e manhã de quinta-feira. Os israelitas, que foram ainda alvo de rockets dos islamitas do Hezbollah, emitiram novas ordens de retirada no Sul do Líbano e em Beirute, que foram bombardeados.
No Golfo, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait e Bahrain tentaram intercetar drones e mísseis iranianos.
Números do conflito
Milhões fora de casa
Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, "entre 600 mil e um milhão de famílias iranianas estão temporariamente deslocadas dentro do Irão em consequência do conflito em curso", o que representa "até 3,2 milhões de pessoas".
Seis mil alvos
Os EUA atingiram cerca de seis mil alvos desde o início da guerra contra o Irão, informou o Comando Central.
Custo da guerra
A primeira semana de operação custou aos EUA mais de 11,3 mil milhões de dólares (9,8 mil milhões de euros), segundo dados do Pentágono fornecidos ao Senado e vistos pelo jornal "The New York Times".

