
Rússia recruta combatentes no estrangeiro face a pesadas baixas na Ucrânia
Foto: Hannibal Hanschke/EPA
Mais de mil quenianos viajaram para a Rússia com promessas de emprego e de salários elevados para acabar a combater contra a Ucrânia, segundo um relatório apresentado aos deputados do país da África Oriental.
Vários meios de comunicação, incluindo a agência francesa AFP, mostraram recentemente como centenas de quenianos, frequentemente sem qualquer passado militar, acabaram a combater as tropas ucranianas, servindo de "carne para canhão", como descreveram as autoridades do Quénia.
Uma vez chegados à Rússia, foram forçados a assinar um contrato com o exército russo para serem rapidamente transferidos para a frente de batalha na Ucrânia, onde muitos foram mortos ou feridos, de acordo com a AFP.
"Até à data, mais de mil quenianos foram recrutados e partiram para combater na guerra russo-ucraniana", declarou no parlamento queniano, na quarta-feira, o deputado Kimani Ichung'wah.
O deputado disse basear-se num relatório conjunto dos serviços de informações e da direção de investigações criminais do Quénia. O número citado por Ichung'wah é muito superior aos 200 quenianos evocados até agora pelas autoridades de Nairobi.
Os recrutas abandonam o país com vistos de turismo para se juntarem ao exército russo via Istambul (Turquia) e Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), precisou o deputado.
Alguns transitam agora pelo Uganda, República Democrática do Congo e África do Sul para evitar controlos, referiu.
De acordo com um balanço de fevereiro, 28 recrutas estavam desaparecidos, 35 em campos ou bases militares, 89 destacados na linha da frente e 39 hospitalizados. Trinta quenianos foram repatriados.
As agências de recrutamento colaboram com funcionários corruptos do aeroporto da capital queniana, bem como dos serviços nacionais de emprego e funcionários das embaixadas da Rússia em Nairobi e do Quénia em Moscovo, denunciou o deputado.
Promessas de emprego
Numa investigação publicada na semana passada, a AFP falou com quatro quenianos que regressaram da Rússia, três dos quais feridos em combate.
Um partiu para a Rússia acreditando que seria vendedor, dois esperavam ser agentes de segurança e o quarto atleta de alta competição.
A todos foram prometidos salários equivalentes a entre 920 e 2400 euros mensais na Rússia, uma fortuna no Quénia, onde muitos trabalhadores ganham apenas cerca de 100 euros por mês (mais de 15.200 xelins quenianos).
O Uganda e a África do Sul figuram entre os outros países africanos visados por este método de recrutamento, numa altura em que a Rússia sofre pesadas baixas na Ucrânia.
O chefe da diplomacia queniana, Musalia Mudavadi, deverá deslocar-se a Moscovo em março.
O Governo do Quénia já condenou a utilização dos seus cidadãos como "carne para canhão".
A Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022, desencadeando uma guerra que em quatro anos causou dezenas de milhares de vítimas civis e militares, bem como milhões de pessoas deslocadas.
