Margrethe Vestager: "Temos de ser muito cautelosos a gastar fundo de recuperação"

Comissária Margrethe Vestager defende menos dependência da UE nos abastecimentos
Pedro Granadeiro / Global Imagens
Margrethe Vestager, comissária europeia, diz ser necessário garantir resiliência e prosperidade para pagar dívida que onera a próxima geração.
O fundo para a recuperação da União Europeia deve ser gasto com muita cautela quando estamos a sobrecarregar a próxima geração, avisa Margrethe Vestager, vice-presidente executiva da Comissão Europeia e comissária para a Concorrência e a Transição Digital. Melhorar competências digitais, combater as alterações climáticas e travar abusos dos gigantes da tecnologia são alguns desafios, bem como impedir que empresas com subsídios estatais estrangeiros prejudiquem as europeias.
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Como podemos construir uma economia mais forte e resiliente para a Europa?
Uma verdadeira resiliência implica uma série de decisões do dia a dia sobre investimentos para o futuro, como obter competências digitais. É também investimento no combate às alterações climáticas e ainda garantir que toda a gente está incluída para ninguém sentir que é deixado para trás.
É urgente dar autonomia estratégica à União Europeia (UE)?
Aprendemos durante a pandemia que temos de ser mais cuidadosos em algumas áreas para garantir que temos os abastecimentos certos. Podemos precisar de inovação para substituir aquilo de que somos dependentes e de trabalhar a cooperação internacional para obter matérias-primas a que não temos acesso na UE. Ou ainda que os negócios obtenham os abastecimentos de diferentes fontes.
Quando enfrenta a crise pandémica, a UE precisa de regras para impedir que empresas financiadas por governos estrangeiros, incluindo as da China, prejudiquem os rivais europeus, como aquelas que apresentou há dias?
Sim. Temos várias ferramentas e acabamos de propor uma nova. Se os produtos estão a ser vendidos na UE com um preço que mal cobre o custo de produção, podemos tomar medidas antidumping, aplicando novas tarifas. A proposta mais recente é garantir que, se uma empresa chega com subsídios estatais estrangeiros e prejudica uma empresa europeia num concurso público ou compra uma empresa europeia à frente de todos porque tem subsídios públicos, então podemos investigar e fazer alguma coisa quanto a isso.
Como podemos garantir a boa aplicação do fundo de recuperação "Próxima Geração UE"?
Temos de saber muito bem o que queremos fazer, porque pedimos emprestado muito dinheiro da próxima geração. Não só vai pagar estas dívidas, como vai trabalhar muito para suportar a geração mais velha. Temos de ser muito cautelosos na forma como o vamos gastar, garantindo que torna a nossa sociedade resiliente e à prova do futuro. Por isso, somos bastante rigorosos para ver se investimos no combate às alterações climáticas, em tornar a sociedade mais conectada, em termos todos melhores competências digitais para haver uma dinâmica que crie a prosperidade que nos permite pagar de volta o dinheiro que estamos a receber agora.
Promover a recuperação através da transição digital é uma das prioridades da presidência portuguesa da UE. É para quando?
A transição digital está a acontecer. E deve ser para toda a gente. Para termos benefícios reais dessa transição, precisamos de melhores competências e de ajudar as empresas a usar as ferramentas digitais. E, claro, precisamos de estar ligados, independentemente de vivermos numa grande cidade ou numa área mais deserta.
Portugal quer que Bruxelas minimize a concorrência desleal, com todos aqueles que querem vender no mercado interno a cumprir as regras sociais e ambientais europeias.
Penso que isso se reflete bastante no tipo de acordos comerciais que fazemos hoje em dia, porque reformamos a velha ideia de que o comércio é bom seja qual for a forma como é concretizado.
Quando é concluído o projeto para modernizar a legislação do mercado digital?
Espero que o mais rápido possível. O Parlamento Europeu está a trabalhar nisso e tem sido uma prioridade da presidência portuguesa.
É conhecida por enfrentar os gigantes do mundo tecnológico, impondo multas elevadas por práticas anticoncorrenciais.
Toda a gente é bem-vinda para fazer negócio na Europa e ser bem-sucedida. Mas, com sucesso, vem a responsabilidade e é importante que o mercado esteja aberto também para os negócios mais pequenos. Há casos de concorrência em que alguns dos gigantes fazem coisas que não deviam mesmo fazer.
A sua prioridade é um acordo global para tributar grandes empresas de tecnologia?
A justiça fiscal é muito importante. É uma questão de concorrência leal. Chegaremos a esse acordo e é importante que os americanos tenham mudado de postura.
O passaporte verde para a covid-19 está previsto para junho. Qual a sua expectativa em relação ao impacto da medida?
É muito importante, porque será mais fácil viajar. Vemos hoje o que custa viajar, com os testes, quarentenas, etc. No meu país, queremos mesmo muito vir para cá.
