
Coro ArteSí é um projeto da organização Olvidados dirigido a crianças e jovens em risco de exclusão
Foto: DR/Olvidados.org
Nunca tinha pronunciado uma palavra até aos seis anos de idade. Comunicava apenas através de sons e gestos devido a um distúrbio da linguagem, e a terapia, até então, não estava a surtir efeito. A mudança inesperada surgiu quando, em janeiro, entrou para o coro infantil ArteSí.
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No coro, composto por crianças dos 5 aos 15 anos, a menina, que o "El País" identificou como Alicia, participava recorrendo a gestos. Embora parecesse tentar vocalizar, a sua voz nunca chegava a ouvir-se durante os momentos de canto.
No entanto, em maio, tudo mudou. Após organizar um concerto aberto ao público, a professora Melissa Castillo, violinista e fundadora do coro em 2017, deu a nove crianças uma frase para cantarem a solo, perguntando a Alicia se queria participar, desafio que ela aceitou. Apesar de nunca a ter ouvido cantar, Melissa Castillo decidiu dar-lhe um voto de confiança. "Quando ela me disse que sim, confiei cegamente", disse.
No momento em que a colega lhe passou o microfone, Alicia entoou o seu excerto da canção: "também se canta a dor chorosa, quando já não se pode chorar", do tema mexicano "La Llorona", e estas foram as suas primeiras palavras em seis anos.
"Quando chegou a sua parte, começou a cantar sozinha", contou a professora, emocionada, ao "El País". O episódio marcou um avanço extraordinário para ultrapassar o distúrbio da linguagem. Um mês depois, Alicia já demonstrava evolução. "Gosto muito de falar, nunca vou calar a boca, nunca, nunca e nunca", afirmou, com uma dicção quase perfeita.
A música como estímulo da linguagem
A psicóloga Silvia Álava explicou ao "El País" que a música é "um excelente facilitador emocional" e contribui para controlar os sentimentos. Ajuda a "desenvolver habilidades emocionais que podem ser muito importantes, porque se está a trabalhar toda essa parte de gestão e regulação das emoções, dos nervos e da ansiedade".
Segundo a professora Melissa Castillo, as 20 crianças entre os cinco e os 15 anos que integram o coro ArteSí manifestam um misto de confiança em si mesmas e a inocência própria da infância. Um equilíbrio que conquistaram após meses de trabalho. "Foi um processo em que vi uma grande mudança, porque no início [as crianças] chegaram com pouca segurança e, com o tempo, abriram-se completamente", destaca.
O coro ArteSí é um projeto da organização Olvidados dirigido a crianças e jovens em risco de exclusão, que recorre à arte como ferramenta de transformação social e pessoal, para promover a integração.
Depois da sua primeira atuação, Alicia passou a frequentar os ensaios mais alegre e participativa. "Este ano contamos novamente com ela. Nas sessões de terapia, fala, ri connosco e constrói frases perfeitas. É uma menina maravilhosa, empática, sensível, acreditamos que vai superar totalmente o diagnóstico", assegurou a professora.
A metodologia de Melissa Castillo vai além da técnica musical: inclui atividades cognitivas, jogos e exercícios artísticos que promovem o autoconhecimento, a confiança e o sentimento de pertença ao grupo.
Neste sentido, a psicóloga Silvia Álava destaca a importância das redes de apoio no desenvolvimento infantil. "Um coro onde as crianças se reúnem pode ter muitos efeitos positivos", defende.
