Moscovo troca museu de campos de concentração soviéticos por outro de "crimes nazis"

Foto: Hector Retamal/AFP
O Museu da História dos Gulag, os campos de concentração soviéticos, vai ser encerrado definitivamente em Moscovo e substituído por uma instituição dedicada à memória dos "crimes nazis", anunciou sexta-feira a câmara municipal de Moscovo.
A nova exposição permanente abordará "todas as etapas" dos crimes nazis durante a "Grande Guerra Patriótica", nome dado na Rússia ao conflito entre a União Soviética (URSS) e a Alemanha nazi de 1941 a 1945, informou a autarquia de Moscovo no seu site.
O novo museu será dedicado "às vítimas do genocídio do povo soviético", acrescentou a autarquia, afirmando que este é um dos "aspetos essenciais do trabalho desenvolvido para a educação patriótica e instrução histórica das gerações mais jovens".
Segundo a autarquia, a instituição que vai ocupar o antigo edifício do Museu do Gulag tem previsão de inauguração "ainda este ano".
A luta da URSS contra a Alemanha nazi tem sido particularmente glorificada na Rússia nos últimos anos.
O Kremlin está a usar esta memória para exaltar o poder soviético e justificar a ofensiva em grande escala contra a Ucrânia, lançada em fevereiro de 2022 sob o pretexto de "desnazificar" o país.
Criado em 2001 com o apoio da câmara municipal de Moscovo e por iniciativa do historiador e antigo deportado Anton Antonov-Ovseyenko, o Museu da História do Gulag abriu as suas portas em 2004.
Abrigava arquivos e objetos que pertenceram às vítimas. A sua exposição permanente era dedicada à história dos campos soviéticos de 1918 a 1956.
No local eram também organizadas exposições temporárias, apresentações e palestras.
"A exposição do Museu do Gulag será completamente desmontada. Os funcionários do museu estão preocupados com o seu destino e estão a fazer todos os possíveis para a salvar e preservar", disse à AFP na sexta-feira uma fonte próxima da administração do museu.
O Museu do Gulag foi encerrado "temporariamente" em novembro de 2024, oficialmente devido a violações das normas de segurança contra incêndios, e nunca mais reabriu.
Era o único grande museu estatal na Rússia dedicado às repressões soviéticas.
Mais de 46 mil pessoas visitaram-no durante os últimos nove meses de funcionamento, segundo o Ministério da Cultura.
Embora Vladimir Putin condene ocasionalmente os excessos do estalinismo, a linha política do Kremlin consiste, geralmente, em minimizá-los.
Os milhões de vítimas da perseguição política são relegados para um papel secundário nos livros de História.
Estaline, a principal figura responsável por estas repressões, é retratado sobretudo como um herói que derrotou o nazismo.
Aqueles que denunciam esta abordagem foram visados pelas autoridades.
A Memorial, uma ONG que documenta as repressões tanto soviéticas como do atual regime de Vladimir Putin, foi rotulada como "agente estrangeiro" e, consequentemente, proibida no final de 2021.
Com a abertura dos arquivos soviéticos depois do colapso da URSS, a Memorial verificou pelo menos 1,6 milhões de mortes nos Gulag, entre 1930 e 1953, mas realçou que milhões de outras pessoas sofreram de "morte social" --- a perda permanente de direitos, de saúde e de família.
O dissidente soviético e Prémio Nobel Aleksandr Solzhenitsyn estimou na sua obra "Arquipélago Gulag" que 60 milhões de pessoas morreram devido a todo o sistema repressivo soviético, contabilizando os campos de concentração e outro tipo de violência, como campanhas de fome promovidas pelo regime comunista.
