
Charles Sobhraj foi condenado a prisão perpétua em 2003
Prakash MATHEMA / AFP
Após 19 anos preso no Nepal, Charles Sobhraj vai ser libertado por motivos de saúde. O "serial killer" foi detido em 2003 e condenado a prisão perpétua pelo assassinato de dois norte-americanos. Mas a lista de crimes do francês soma também furtos, burlas e mais de uma dezena de homicídios.
A decisão do Supremo Tribunal nepalês foi conhecida esta quarta-feira. "Se não houver outros processos pendentes contra ele, este tribunal ordena a sua libertação a partir de hoje e o regresso ao seu país no prazo de 15 dias", pode ler-se no veredito do tribunal, ao qual a France-Presse (AFP) teve acesso.
Charles Sobhraj, agora com 78 anos, está detido no Nepal desde 2003 e foi condenado a prisão perpétua por assassinar dois turistas norte-americanos. O homem, com ascendência indo-vietnamita e nacionalidade francesa, precisa de uma cirurgia ao coração e por isso a justiça ordenou a sua libertação compassiva, permitida pela lei por já ter cumprido três quartos da sentença. "Mantê-lo continuamente na prisão não está de acordo com os direitos humanos", acrescenta o veredito.
Para um recluso ser elegível para a libertação compassiva tem de estar em causa circunstâncias extraordinárias que não poderiam ser previstas pelo tribunal no momento da sentença, como uma doença, por exemplo. Em 2017, o francês já tinha sido submetido a uma cirurgia cardíaca de cinco horas.
Sobhraj provavelmente será libertado da prisão central de Katmandu, capital do país, na quinta-feira, segundo um funcionário da prisão citado pela AFP.
Estranguladas, espancadas e queimadas
Após uma infância conturbada e várias detenções durante a adolescência por pequenos delitos, em França, Sobhraj começou a viajar pelo Mundo nos anos 70 e acabou na capital tailandesa Banguecoque.
Num artigo da "Vice" de 2014, Gary Indiana, que conheceu o "serial killer" nos anos 80, disse que o aspeto "provinciano" e "não europeu" faziam com que os "hippies" que viajavam à Ásia o considerassem interessante e "inofensivo".
"A especialidade de Charles Sobhraj era assassinar 'hippies' que vinham descobrir a Ásia", declarou. Mostrava-se disponível, de confiança e era encantador com as suas vítimas - muitas delas ocidentais - antes de as drogar, roubar e assassinar. As vítimas eram estranguladas, espancadas ou queimadas, e usava frequentemente os passaportes dos homens para viajar para outros destinos. Aliás, conquistou o cognome de "Serpente" pela capacidade de assumir outras identidades e aldrabar a justiça.
"Ele era um homem de muitas identidades: um intelectual israelita um dia e um vendedor libanês no outro, e percorria a Ásia à procura das presas", recorda Gary Indiana. Segundo relatos citados pela BBC, Sobhraj falava fluentemente várias línguas.
A primeira suspeita de assassinato que recaiu sobre ele dizia respeito a uma jovem americana, cujo corpo foi encontrado numa praia de Pattaya, na Tailândia, em biquíni, corria o ano de 1975. O nome do francês está ligado a mais de 20 homicídios.
Vida em fuga
Transformado num verdadeiro camaleão, Charles Sobhraj viveu uma vida ligada ao crime. Foi detido na Índia em 1976 e acabou por passar 21 anos na prisão, com uma breve pausa em 1986 quando escapou e foi novamente apanhado em Goa. Libertado em 1997, Sobhraj mudou-se para Paris, mas voltou a aparecer em 2003 no Nepal, onde foi visto em Katmandu e preso.
No ano seguinte, um tribunal de Katmandu condenou-o a prisão perpétua pelo morte do turista norte-americano Connie Jo Bronzich, em 1975. E uma década mais tarde, foi considerado culpado de matar a companheira da vítima.
Depois de ter alcançado a fama com a minisérie "Shadow of the Cobra" (1989), onde foram retratados muitos dos crimes que cometeu, e com o livro "Life and Crimes of Charles Sobhraj" (Vida e crimes de Charles Sobhraj, em tradução literal), a Netflix produziu em 2021 "The Serpent", minissérie de oito episódios, co-produzida pela BBC One, elevando a história do "serial killer" ao estrelato mundial.
