
Apoiantes de Jair Bolsonaro invadiram o Palácio do Planalto no domingo
EPA
Ana Paula Costa, investigadora no Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-NOVA) e vice-presidente da Casa do Brasil, falou ao JN sobre os incidentes de domingo no Brasil.
Que leitura faz deste ataque às instituições democráticas logo no arranque do mandato de Lula?
O discurso adotado por Bolsonaro nestes quatro anos resultou numa invasão do que representa a democracia, a soberania e a governação brasileiras. É muito simbólico aquele espaço ser destruído logo após a tomada de posse do atual presidente, porque é mais uma tentativa de fazer com que a vitória eleitoral não seja válida. Primeiro, tentaram uma revisão do resultado das urnas, depois foram para as ruas, queimaram autocarros. Os acampamentos de bolsonaristas continuaram. Anteontem, deu-se mais uma tentativa: cerca de 100 autocarros chegaram a Brasília com pessoas que foram invadir a casa da democracia brasileira de forma violenta.
Após a invasão, Lula pediu intervenção federal na Segurança Pública. O decreto tem de ser votado?
Não. Já está a valer, mas só em Brasília. Não vale para o Brasil inteiro, é um decreto extraordinário. O presidente tem essa possibilidade de, em situações específicas, tomar algumas medidas judiciais e esta foi vista com o ministro da Justiça. É válida em Brasília até ao dia 31 de janeiro. Não tem de haver votação do Congresso, foi aquilo a que no Brasil se chama uma canetada: o presidente só assina.
Haverá risco de episódios como o de domingo se replicarem noutras cidades?
Não se pode descurar nenhuma possibilidade. O que vimos foi que houve alguma omissão e inação por parte das autoridades locais. Essas organizações bolsonaristas manifestaram-se nas redes sociais e, de alguma maneira, desvalorizou-se que a mobilização poderia radicalizar-se. Foi exatamente o que aconteceu. As autoridades brasileiras têm de prever estes atos, mas o comando da polícia de Brasília está completamente bolsonarizado. A polícia acabou por não fazer o seu papel de proteger o património público e as pessoas. Foi, de certa forma, conivente com tudo isto. Vimos imagens de polícias a tirarem fotografias com bolsonaristas. É preciso rever essas polícias. O discurso ainda não se moderou, vi que já há militantes a irem para as estradas para tentarem fazer um bloqueio. Temos de considerar a possibilidade de estes atos se radicalizarem.
Como avalia a postura e a reação de Jair Bolsonaro a estes episódios de violência?
Bolsonaro nunca se responsabilizou politicamente por nenhum ato ou discurso. Anteontem, a reação dele foi mais do mesmo. É importante dizer que estes grupos são dispersos e não têm um projeto em comum: só muita raiva, ódio e violência. No fundo, queriam acabar com a democracia, mas, do ponto de vista de projeto, de construção, não havia nada: apenas a destruição. Bolsonaro não consegue ter uma postura honesta e sustenta essa radicalização porque em nenhum momento disse "não vão para as ruas".

