
O presidente do Vietname, Luong Cuong, e o secretário-geral da ONU, António Guterres, cumprimentam-se antes da assinatura da Convenção das Nações Unidas contra o Cibercrime, em Hanói
Foto: Luong Thai Linh/EPA
Mais de 60 países já aderiram à Convenção das Nações Unidas contra o Cibercrime, reforçando a cooperação internacional contra as ameaças digitais. Especialistas alertam, contudo, para uma nova era de ataques autónomos impulsionados por Inteligência Artificial.
A Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou este sábado que mais de 60 países assinaram a nova Convenção da ONU contra o Cibercrime, numa cerimónia realizada em Hanói, capital do Vietname, que contou com a presença do secretário-geral, António Guterres.
"A convenção é um instrumento poderoso e juridicamente vinculativo para reforçar as nossas defesas coletivas contra o cibercrime", declarou Guterres durante a cerimónia, segundo a agência EFE.
Entre os signatários estão países latino-americanos como o Brasil, Cuba, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Peru, Equador, Uruguai e Venezuela. No total, 68 Estados já subscreveram o tratado, e a ONU espera que mais se juntem até domingo.
Um problema sem fronteiras
O documento, composto por nove capítulos e 71 artigos, aborda desde o abuso infantil online ao branqueamento de capitais, estabelecendo uma estrutura comum para a recolha e partilha de provas digitais entre países. É também o primeiro tratado da ONU a associar o nome de uma cidade vietnamita a um acordo internacional - sinal do crescente papel da Ásia no panorama tecnológico mundial.
"É uma prova do poder contínuo do multilateralismo para fornecer soluções e um compromisso de que nenhum país, independentemente do seu nível de desenvolvimento, ficará indefeso contra o cibercrime", sublinhou António Guterres.
O Gabinete das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) tem identificado o Sudeste Asiático como um dos epicentros dos esquemas digitais e plataformas fraudulentas, especialmente em Myanmar, Laos e Camboja.
"O cibercrime está a transformar a face do crime organizado tal como o conhecemos. A nova convenção fornece aos Estados-membros uma ferramenta essencial para o enfrentar em conjunto", destacou Ghada Waly, diretora executiva do UNODC.
O alerta para a próxima década
Enquanto a ONU aposta na cooperação multilateral, a Check Point Research, unidade de inteligência da empresa de segurança Technologies, alerta para uma nova fronteira do crime digital: o cibercrime autnomo alimentado por Inteligência Artificial (IA).
De acordo com a empresa, até 2030, a maioria dos ataques de ransomware e de roubo de dados poderá ser conduzida por sistemas de IA capazes de aprender e agir de forma independente, praticamente sem intervenção humana.
"Estamos a entrar numa fase em que a IA já não é apenas uma ferramenta de produtividade, mas também um catalisador de novas formas de ciberameaças autónomas", explicou Raymond Schippers, evangelista da Check Point.
A investigação revela que um em cada 54 prompts de IA generativa em redes empresariais representa um risco elevado de exposição de dados sensíveis - uma vulnerabilidade que já afeta 91% das organizações que recorrem regularmente a estas ferramentas.
Entre as ameaças emergentes contam-se o malware adaptativo, capaz de se reescrever e escapar a deteções, os ataques à cadeia de fornecimento de IA e os agentes digitais que imitam colaboradores reais, reproduzindo vozes e padrões de comunicação com um realismo inquietante.
Para reduzir os riscos, a Check Point defende uma estratégia de prevenção ativa e governação responsável da IA, com segurança desde a origem das ferramentas, aplicação de modelos Zero Trust e monitorização contínua das interações digitais.
"A segurança do futuro será definida por quem conseguir transformar a IA de ameaça em vantagem estratégica", conclui Schippers.
Com a assinatura em Hanói e os avisos da comunidade tecnológica, o combate ao cibercrime entra numa nova fase, onde a cooperação global será decisiva para garantir que a tecnologia continua ao serviço das pessoas, e não do crime.

