
Quem são Uma análise à vaga de refugiados sírios - país que mais contribui, este ano, para os pedidos de asilo na Europa - permite perceber que "estamos mesmo a ver chegar a sociedade civil síria".
São formados. Na maioria. Muitos superiormente. Engenheiros, advogados. São também comerciantes, artesãos, professores, artistas. Em setembro, Mourad Derbak, da Agência Francesa de Proteção dos Refugiados e Apátridas, dizia ao "Le Monde" que, mais do que a uma vaga de migrações, a Europa está a assistir a "um êxodo". "Estamos mesmo a ver chegar a sociedade civil síria". Os refugiados são, portanto, o retrato de uma sociedade com ampla classe média e uma tradicional aposta na educação. Em 1990, mais de 20% dos jovens em idade universitária já frequentavam o Ensino Superior e desde 1960 que sobressai entre os estudantes sírios a escolha por carreiras de engenharia e medicina, recorda ao mesmo jornal a investigadora Elisabeth Longuenesse, do Instituto Francês do Médio Oriente, em Beirute (Líbano).
Antes de 2011, cruzar as avenidas da Damasco moderna era passear entre hordas de estudantes de pasta cuidada e ar atarefado. E se antes de 2000 a repressão de Hafez al-Assad "expulsou" intelectuais e políticos dissidentes, o regime do filho dele e atual presidente sírio, Bashar al-Assad, e a guerra que dilacera o país desde 2011 afastaram outros tantos homens de letras e pensadores. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) classifica a Síria na fatia dos países com desenvolvimento humano médio, com uma pontuação de 0,658, igual à da África do Sul e imediatamente acima da iraquiana.
Entre 2012 e 2013, já em guerra, perdeu apenas quatro lugares no ranking. Com uma esperança média de vida à nascença fixada nos 74,6 anos, a população tem uma escolaridade média de 6,6 anos, num sistema escolar de 12 anos, 34% da população tem educação secundária ou superior e a literacia adulta fixa-se nos 84% (Portugal está nos 95%). Mas estes são números que o conflito veio transfigurar: o desemprego jovem atingia em 2012 os 19% e menos de metade da população com mais de 25 anos tinha emprego.
A taxa de desemprego chega aos 54%. Cerca de 75% vivem em condições de pobreza e 55% não têm acesso a necessidades básicas e 20% das que vivem em zonas de conflito enfrentam problemas de malnutrição. "Ao cabo de cinco anos de conflito na Síria, mais de 60% da população está deslocada internamente ou fugiu do país. Os combates fizeram regredir o desenvolvimento humano da região do 113.O lugar em 189 países em 2010 (antes do conflito) para o 173.O em 183 países no final de 2014", estima o PNUD.
Que sublinha mais de 250 mil mortos (os números são incertos, havendo outras agências a apontar 220 mil), mais de quatro milhões com estatuto de refugiado na vizinhança (Egito, Iraque, Jordânia, Líbano, Turquia e Norte de África) e 13,5 milhões a precisar de assistência humanitária.
