
Familiares desesperam sem esperança de encontrar os seus entes queridos
LUCAS DOLEGA/EPA
Acerca do que houve, esta segunda-feira de madrugada, sobre o Atlântico, pode apenas especular-se. De uma zona em que a trajectória não é monitorizada, em terra, um avião de longo curso lançou uma mensagem automática de alerta. Depois, o silêncio.
Não é fácil responder às interrogações básicas que se colocam na elaboração de uma notícia. Sabe-se que o voo AF 447, que saíra do Rio de Janeiro em direcção a Paris, transportando 216 passageiros e 12 tripulantes, enviou uma mensagem automática, reportando um curto-circuito e problemas de despressurização da cabina, quatro horas após a descolagem (por volta das três da madrugada, em Portugal). Sabe-se que, a dada altura, não foi feita a comunicação via rádio, para o controlo de tráfego aéreo, a que o regulamento obriga. Sabe-se que tudo isto ocorreu numa área onde a instabilidade meteorológica é constante, sabe-se que o aparelho, que não aterrou em qualquer sítio, esgotou, inevitavelmente, o combustível que transportava. Mas não se sabe o que efectivamente aconteceu. Nem onde. Muito menos porquê.
As possibilidades de encontrar sobreviventes eram "muito pequenas", assim o admitiu o presidente francês, Nicolas Sarkozy, que foi ao aeroporto de Roissy-Charles de Gaulle, onde era esperado o Airbus que nunca chegou. Onde, além dos tripulantes franceses, eram esperadas pessoas de 32 nacionalidades: um bebé, sete crianças, 82 mulheres e 126 homens. Também difícil era encontrar um destroço que fosse do aparelho, desaparecido algures, numa vastidão de oceano que não tem cobertura de radar e sem outros meios técnicos que permitam a sua localização.
Por maior que um A330 possa parecer aos olhos do ser humano, não passa de "uma casca de noz no meio de uma imensidão", explica ao JN José Sousa Monteiro, ex-comandante da TAP e especialista em assuntos de aviação civil. Só a partir de Cabo Verde os aviões voltam a ser visíveis por radar, pelo que o desaparecimento apenas foi confirmado pela ausência da comunicação via rádio que, por obrigatoriedade regulamentar, os pilotos têm de fazer a cada hora. Ou seja, o avião desapareceu algures na distância que teria percorrido ao longo de uma hora de voo.
Tendo no currículo "centenas de voos" na rota em causa, José Sousa Monteiro está perfeitamente familiarizado com um fenómeno que se depara a todos os pilotos, a chamada Frente Inter-Tropical (FIT), uma linha de trovoadas carregada de gelo e electricidade. Normalmente, por radar, os pilotos detectam essas formações de cúmulo-nimbos, desviando-se, "sem fugir muito da rota". "Certamente - diz o especialista - foi isso que o piloto fez".
De resto, entra tudo no campo da especulação. Supõe-se que um relâmpago possa ter atingido o aparelho, mas isso é algo que acontece frequentemente, sem causar quaisquer problemas. Um avião como o A330 está equipado com sistemas que tornam as descargas eléctricas externas inofensivas - "a electricidade escoa-se e não afecta nada nem ninguém no avião" -, mas a verdade é que nada é infalível. "É impossível prever todos os imponderáveis", diz José Sousa Monteiro, admitindo que um curto-circuito a bordo possa ter afectado sistemas vitais da aeronave, incluindo os próprios comandos do avião, que assentam em tecnologia computorizada "fly-by-wire".
Onde pára, então, o A330? Só se os sinais fossem recebidos em terra, o que não sucede naquela zona, aparelhos como o "transponder" serviriam para o localizar. Isto porque, embora os aviões usem sistemas de navegação por satélite, recebendo informação, não transmite em sentido contrário, de forma a que o trajecto seja monitorizado em terra. Só elementos que flutuem, de manchas de óleo a coletes salva-vidas, permitirão detectar o local do desastre. A análise dos destroços permitirá perceber melhor o que aconteceu, mas, se as chamadas "caixas negras" estiverem em local inacessível, no fundo do mar, o mistério perdurará.
