Philip Glass afasta estreia mundial de sinfonia do Kennedy Center em protesto contra Trump

Philip Glass, de 88 anos, retirou a sua Sinfonia 15 "Lincoln" do Kennedy Center, citando divergências entre os princípios da obra e a atual direção do centro
Foto: Alfredo Estrella/AFP
O cancelamento da estreia da Sinfonia 15 "Lincoln" reflete o crescente conflito entre artistas e a direção do Kennedy Center, agora controlada por Donald Trump. Philip Glass anunciou a retirada da sua obra, citando divergências entre os valores do centro e a mensagem da sinfonia.
O aclamado compositor Philip Glass anunciou esta terça-feira a retirada da estreia mundial da sua Sinfonia 15 "Lincoln" do Kennedy Center, em Washington, criticando a atual direção do centro. "A Sinfonia 15 é um retrato de Abraham Lincoln, e os valores do Kennedy Center hoje estão em conflito direto com a mensagem da Sinfonia", escreveu Glass numa publicação nas redes sociais.
Glass, que fará 89 anos na próxima semana, tinha sido convidado pela Orquestra Sinfónica Nacional para compor a obra em comemoração do 50.º aniversário do centro e dos 250 anos da independência dos Estados Unidos. O lançamento estava previsto para junho, com a orquestra a interpretar a peça pela primeira vez.
A decisão do compositor junta-se a uma série de cancelamentos de artistas e instituições. A Ópera Nacional anunciou recentemente que deixaria de atuar no Kennedy Center, enquanto nomes como a soprano Renée Flemming, os músicos Béla Fleck e Kristy Lee, a atriz Issa Rae e a banda Low Cut Connie também cancelaram atuações.
Entre arte e política
A retirada de Glass evidencia a tensão no centro de artes, agora sob influência direta do presidente Donald Trump, que adicionou o seu nome ao edifício e alterou a programação do espaço. Desde que assumiu o controlo da instituição, Trump promoveu eventos políticos, alterou a seleção de obras e viu o público reduzir-se em cerca de 50%. Apesar disso, a gala anual e doações de aliados do presidente ajudaram a equilibrar as finanças do Kennedy Center.
Jean Davidson, diretora executiva da Orquestra Sinfónica Nacional, mostrou surpresa com a decisão: "Sentimos uma grande admiração por Philip Glass e ficámos surpreendidos ao tomar conhecimento da sua decisão ao mesmo tempo que a imprensa." O diretor artístico, Gianandrea Noseda, garante que a orquestra continuará a atuar no centro, tentando manter-se afastada da polémica política.
Philip Glass é reconhecido como um dos compositores mais influentes do século XX e XXI, com obras como "Einstein on the Beach", "Akhnaten" e "The Voyage". Ao longo da carreira, recebeu prémios como os Kennedy Center Honors, a Medalha Nacional das Artes e vários Grammy. Para a Sinfonia 15, Glass inspirou-se em discursos e textos de Lincoln, pretendendo refletir a vida e os princípios do antigo presidente norte-americano.
O cancelamento marca o fim de uma relação histórica entre Glass e o Kennedy Center, sendo um gesto raro de um compositor que retira uma obra como protesto político. A Sinfonia 15 "Lincoln" será agora apresentada noutro local, ainda por anunciar, mantendo vivo o legado artístico e a homenagem a Lincoln.

