Portugueses na Turquia: "Acreditamos até ao fim, esse é que tem de ser o espírito"

O comandante da missão portuguesa na Turquia, José Guilherme
JOAO RELVAS/LUSA
Comandante da missão portuguesa na Turquia diz que "janela de oportunidade" para encontrar vida "está a ficar praticamente fechada"
Partiram na passada quarta-feira com um plano inicial de permanecer em Antáquia, na Turquia, por um período de dez dias, mas depois do resgate, este sábado, de Baran, um menino de dez anos, a perspetiva de encontrar mais alguém com vida é cada vez menor, o que poderá antecipar o regresso da equipa portuguesa, composta por 52 elementos e seis cães, que integra as operações de salvamento numa área fortemente atingida pelos dois sismos de há uma semana. Quem o diz é José Guilherme, comandante da missão portuguesa na Turquia, contactado pelo JN, que garante, ainda assim, acreditar "até ao fim" na possibilidade de voltar a encontrar vida entre os escombros.
"Está a chegar o momento, em termos de janela de oportunidade, em que esta está a ficar praticamente fechada", contou este domingo ao JN, por telefone, José Guilherme. O comandante da missão portuguesa deu conta de um quadro de insalubridade que deverá tornar-se cada vez mais evidente no terreno: "Poderá começar a existir um problema de saúde pública se as autoridades locais de saúde não iniciarem os trabalhos de remoção e limpeza".
Circunstâncias que poderão ditar a antecipação do regresso da Força Operacional Conjunta portuguesa. "Viemos por dez dias, mas o regresso pode ser já amanhã, dependemos de decisões locais e do nosso Governo", adiantou.
No tom agastado de quem embate, nesta altura, na devastação, José Guilherme não esmorece, e diz acreditar, até ao último momento, ser ainda possível salvar mais vidas. "Acreditamos até ao fim, esse é que tem de ser o nosso espírito".
José Guilherme, que é também segundo comandante regional de emergência e proteção civil do Alentejo, recupera o momento alto da missão portuguesa, a operação de resgate de Baran, uma criança de dez anos que foi depois encaminhada para um hospital em Istambul. "A operação durou, desde o seu início, quatro horas. Houve uma sinalização do cão, avaliação, depois nova sinalização, até percebermos que havia vida. Foi um popular que deu o alerta, pois teria ouvido barulhos".
O comandante perdeu, entretanto, o rasto ao estado de saúde de Baran, mas assegura que quando este "foi entregue à unidade de saúde estava completamente estável". A mãe e o irmão do menino morreram, só o pai sobreviveu e acompanhou toda a operação da equipa portuguesa. "O pai estava completamente ansioso e nervoso. Nestes países é uma das regras, devido à religião e às tradições, as famílias estarem presentes nestas operações", explicou ao JN.
Três sinalizações
O comandante descreveu ainda como foi o dia de hoje, em que, por momentos, pensaram ter encontrado alguém: "Continuámos a missão de reconhecimento, houve três sinalizações feitas pelos cães, mas não encontrámos ninguém. Progredimos na estrutura até o cão deixar de sinalizar".
Dividida em duas equipas, de 26 elementos cada, a missão portuguesa prossegue entre os escombros 24 sobre 24 horas. "Neste momento estamos mesmo no centro da cidade, na área de um edifício colapsado, estão 26 operacionais no terreno. Estamos todos bem, está tudo controlado", contou José Guilherme, que lidera um desígnio incessante pela sobrevivência.

