Primeira-ministra japonesa toca bateria, gosta de motas e é adorada pela Geração Z

Takaichi rompeu com a imagem dos jantares sumptuosos e da burocracia rígida
Foto: Kazuhiro Nogi / AFP
Sanae Takaichi, a primeira mulher a chefiar um governo no Japão e que procura reforçar o mandato nas eleições antecipadas de domingo, foi baterista de uma banda de "heavy-metal" e gosta de motos.
No cargo desde outubro de 2025, Takaichi, 64 anos, apesar de ultraconservadora, conquistou rapidamente os jovens, pouco dados a votar, com um estilo que rompeu com o formalismo tradicional dos políticos japoneses.
Tocou bateria com o presidente sul-coreano, tirou "selfies" com a primeira-ministra italiana e fica em casa a estudar dossiers "em vez de jantar e beber vinho com a velha guarda da elite empresarial", assinalou o jornal "The Japan Times".
Sanae Takaichi a tocar bateria com o presidente sul-coreano Lee Jae Myung (Foto: Cabinet Public Affairs Office)
Sanae Takaichi nasceu em 7 de março de 1961 em Yamatokoriyama, próximo de Osaca, na ilha de Honshu, a que concentra as maiores cidades, incluindo Tóquio, e mais de 80% dos 122,7 milhões de habitantes do Japão.
Por ser mulher, os pais optaram por reservar o dinheiro para os estudos em Tóquio para o irmão mais novo, pelo que se licenciou em Administração de Empresas pela Universidade de Kobe.
Para isso, gastava seis horas por dia nas deslocações da casa dos pais para a cidade portuária e recorreu a um trabalho a tempo parcial para ajudar nas despesas.
É a segunda primeira-ministra que sai da Universidade de Kobe, depois de Sosuke Uno em 1989, mas a lista de notáveis inclui o primeiro presidente da Toyota Rizaburo Toyoda, ou o prémio Nobel de Medicina Shinya Yamanaka (2012).
Casada duas vezes com o mesmo homem, Taku Yamamoto, não teve filhos, mas adotou os três filhos do marido de um casamento anterior e têm quatro netos.
Takaichi goza de uma popularidade invulgarmente elevada entre os jovens consumidores que tudo lhe imitam, desde a mala em pele, cujas vendas esgotaram, até à caneta cor-de-rosa ou os ténis que usa na campanha.
O sucesso é tal, que conta com uma aprovação de até 88% entre os menores de 30 anos, segundo a Fuji TV.
"Atraídos pela sua aura"
Alguns comparam Takaichi à estrela de basebol Shohei Ohtani, outros descrevem-na como uma "primeira-ministra do povo".
O certo é que está a suscitar o entusiasmo da Geração Z, os que nasceram com a internet e dispositivos digitais num país com um eleitorado envelhecido.
"Duvido que muitos jovens estudem as suas políticas. Estão atraídos pela sua aura geral", disse à agência de notícias France-Presse Mio Nishimatsu, uma estudante de 16 anos que descreveu a "personalidade adorável e cheia de humor" de Takaichi.
A dúvida é se esta aura refletida nas redes sociais e em comícios vai mobilizar os jovens no domingo e dar ao Partido Liberal Democrático (LDP) os votos que permitam a Takaichi governar sem negociar apoios.
"Existe o estereótipo de que os jovens não votam, mas não é esse o caso agora", disse o diretor do Conselho da Juventude, Yuki Murohashi, à agência espanhola EFE.
O professor Masahisa Endo da Universidade de Waseda admitiu que o voto dos jovens parece inclinar-se para Takaichi, por ser vista como uma política com uma atitude rebelde.
"Não operam sob a lógica de esquerda ou direita", explicou o especialista em comportamento eleitoral.
Oriunda de uma família comum e sem ligações a dinastias políticas, como era tradição, Takaichi rompeu com a imagem dos jantares sumptuosos e da burocracia rígida, apresentando um "sorriso angélico" em vídeos virais nas redes sociais TikTok e YouTube.
"Parece que o Japão mudou. Passámos da tradição para a inovação", comentou ao "The Japan Times" o estudante universitário Genki Takahashi, 21 anos, observando que todos os primeiros-ministros anteriores eram homens.
Para a revista malaia "The Peak", a ascensão de Takaichi "não é apenas política, é cultural e até geracional", simbolizando "o progresso envolto em tradição".
"Embora possa não se identificar como feminista, dado o apoio aos papéis tradicionais de género e à sucessão imperial exclusivamente masculina, a sua ascensão carrega, ainda assim, um peso simbólico. Mostra às jovens mulheres por todo o Japão que elas também podem, um dia, liderar a nação", acrescentou.
