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No conflito armado que opõe a Rússia à Ucrânia, o rasto de destruição não se perpetua só nas ruas. O combate bélico encontrou no digital um campo de batalha recheado de armadilhas e a desinformação ganha cada vez mais expressão, tornando-se num perigo global difícil de extinguir. As "fake news" são a arma para instalar o medo e a regulação das redes sociais torna-se cada vez mais urgente.
Com a globalização tecnológica, José Moreno considera previsível que a guerra seja vivida online e acredita que o futuro tenderá a repetir a História. A diferença é o modo como a Rússia, conhecida pela sua grandeza digital, está a aproveitar para gerar o pânico. "Qualquer guerra entre dois países desenvolvidos teria um lado cibernético. A questão aqui tem a ver com os regimes. A atual liderança russa não tem escrúpulos em criar notícias falsas para lançar o caos e a desunião do adversário. É o esquema clássico de guerra de desinformação da Rússia", explica o investigador do Centro de Investigação e Estudos em Sociologia (CIES) do ISCTE, lembrando que o método já tinha sido utilizado pelo país na "Operação Infektion", durante a Guerra Fria, para prejudicar a credibilidade dos Estados Unidos.
Regulação sem consenso
"Há a máxima de que na guerra, a primeira vítima é a verdade. Os ambientes digitais são muito fáceis de disseminar a mentira, amedrontar as populações e manipular a opinião pública", aponta Sérgio Denicoli.
O investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho não tem dúvidas de que atravessamos uma guerra cibernética, visível pelos constantes ataques informáticos a empresas de todo o Mundo, a aponta a regulação das redes sociais como cada vez mais necessária, e ao mesmo tempo, tão difícil de criar. "Não há culpabilização em relação às "fake news". É uma discussão que dura há vários anos, sem conclusão. Mais tarde ou mais cedo, alguma coisa terá que acontecer. Isto não pode continuar a ser um mundo à parte, tem que haver algo que dê segurança às pessoas".
Literacia é fundamental
De todos os lados da barricada, a população é bombardeada com informação falsa, dúbia, turva, manipulada. De acordo com José Moreno, a literacia digital assume-se como uma arma de retaliação indispensável. "Os ucranianos devem ser capazes de utilizar as ferramentas digitais para verificar a veracidade, procurar fontes credíveis e fazer a despistagem da informação, para conseguirem desconstruir a estratégia de propaganda da Rússia. É a única coisa que os pode defender desta guerra cibernética", considera o investigador do ISCTE.

