
Café/bar "Javi", em Guijuelo
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A poucos dias da exumação do corpo de Francisco Franco, os saudosistas dos tempos do ditador encontram refúgio na "Rota 36", uma associação de estabelecimentos que recordam a Espanha fascista que deu os seus primeiros passos em 1936.
Os nacionalistas espanhóis são convidados a percorrer esses locais, sobretudo bares e restaurantes espalhados pelo país, onde se relembra os tempos até à morte do ditador, em 1975, e a dissolução do parlamento franquista dois anos depois.
"Queremos exaltar um pouco a Espanha, a bandeira. Unificar Espanha ainda mais, fazê-la maior. Maior do que foi com o 'pequeno' [Franco]", disse à Lusa Javier Quintas, dono do café/bar "Javi", em Guijuelo, uma aldeia conhecida em toda a Espanha pela produção de presunto, 50 quilómetros a sul de Salamanca e a 120 quilómetros a leste de Vilar Formoso.
Javi, como é conhecido pelas pessoas da povoação, tem um busto de Francisco Franco em cima do balcão e à medida que falava com a Lusa acariciava e beijava a cabeça do que chamava "menino" com afeto.
O bar está decorado como se fosse um museu do regime franquista: paredes repletas de fotografias, bandeiras e símbolos dos tempos passados, e a música que se ouve também é da época da ditadura.
A Espanha é um dos únicos países europeus onde ainda se permite fazer a apologia do fascismo e um ex-ditador está sepultado num mausoléu.
A conversa com Javi teve lugar alguns dias antes de os restos mortais de Francisco Franco serem transferidos do Vale dos Caídos -- lugar imponente mandado construir pelo ditador numa encosta da Serra de Guadarrama, a 60 quilómetros de Madrid - para um cemitério em El Pardo, nos arredores da capital.
Javi considerou que a exumação do corpo é "negativa", porque "não se deve tocar em Franco, nem no Vale" dos Caídos, e assegurou que, neste momento, ninguém vai impedir essa transferência, mas defendeu que se estava a "mexer e a crispar os nervos" dos espanhóis, o que pode ter consequências no futuro.
A exumação de Franco foi aprovada em setembro de 2018, quando o parlamento votou uma alteração à Lei da Memória Histórica para autorizar a retirada dos restos mortais do ditador do Vale dos Caídos.
O decreto-lei teve o apoio da esquerda espanhola (PSOE e Unidas Podemos), todos os partidos regionalistas, incluindo os independentistas catalães, e contou com a abstenção da direita (Partido Popular e Cidadãos), tendo apenas dois deputados do PP votado contra "por engano".
Seguiu-se uma batalha jurídica, que opôs o Governo do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) à família de Francisco Franco, que pretendia que o corpo do ditador fosse transferido para a catedral de Almudena, no centro de Madrid, onde a filha, Carmen Franco, tinha comprado em 1987 uma sepultura com espaço para vários corpos.
Em setembro deste ano, o Tribunal Supremo espanhol rejeitou o recurso da família de Franco e decidiu de forma definitiva que o corpo devia ser exumado do Vale dos Caídos.
Para o Governo socialista, o corpo do ditador não podia ser transferido para qualquer local onde houvesse a possibilidade de ser "enaltecido ou homenageado".
Javier Quintas incentiva todas as pessoas que passam pelo seu café a fazerem a 'Rota 36' e a visitarem os locais onde "se respira a paz e Espanha".
"Aqui podem dar vivas a Espanha. Lá fora não. Há indivíduos que se revoltam e insultam-te", afirmou.
Outra particularidade anedótica do bar "Javi" é a sua lista de preços, com o café, que custa 1,20 euros, a ser mais caro, 3,00 euros, para os "vermelhos" (socialistas/comunistas) e a 150,00 euros para os deputados de todos os partidos.
Nas últimas semanas, o Vale dos Caídos recebeu a visita de muitos saudosistas do regime franquista que quiseram ir ao local antes que o corpo do ditador fosse exumado.
"Para quê? Qual o sentido de levar um cadáver daqui? [Tirar] um esqueleto daqui? Não serve para nada", comentou Maria Neves, acompanhada pela filha, à entrada da basílica onde está o túmulo de Franco.
Esta nacionalista espanhola concordou que Franco "é o passado", mas concluiu de forma veemente que a sua família, não sendo de qualquer quadrante político, vivia "muito melhor na época" do ditador.
Francisco Franco Bahamonde foi um militar espanhol que integrou o golpe de Estado que, em 1936, marcou o início da Guerra Civil Espanhola, tendo exercido, desde 1938, o lugar de chefe de Estado, até morrer em 1975, um acontecimento decisivo para iniciar a transição do país para um sistema democrático consolidado com a Constituição de 1978.
