
Foto: Agence Kampuchea Presse (AKP)/HANDOUT/AFP
O conflito atual entre a Tailândia e o Camboja resulta de uma disputa histórica pela fronteira estabelecida há mais de um século, quando a França ocupava a então Indochina, e pela soberania de templos hindus.
Os exércitos dos dois países, que já registaram confrontos violentos em julho, lutam desde domingo pelo controlo de áreas onde se situam edifícios religiosos do século XI, altura em que a região era controlada pelo Império Khmer (802-1431).
A Tailândia disse que registou a morte de quatro soldados desde domingo, e o Camboja de oito civis.
Outrora ruínas esquecidas e cobertas pela vegetação, o domínio sobre os locais de culto reacendeu os sentimentos nacionalistas, segundo a agência de notícias espanhola EFE.
O exército tailandês deu conta de confrontos na terça-feira em redor dos templos de Ta Kwai, também conhecido como Ta Krabei, e Ta Muen Thom.
Situam-se ambos perto da linha divisória entre a província tailandesa de Surin e a cambojana de Oddar Meanchey.
De escasso valor estratégico militar, o domínio sobre estes centros religiosos tornou-se um assunto de elevado peso patriótico.
"Embora nenhum dos países deseje uma guerra em larga escala, ambos consideram que os templos em disputa e o território circundante são importantes para a história e identidade nacional", disse o especialista em Sudeste Asiático Tom Pepinsky, da Universidade Cornell.
"A política interna em ambos os países exacerba estas tensões", afirmou o cientista político norte-americano da universidade nova-iorquina, num comentário enviado à EFE.
Um dos precedentes mais significativos da disputa de soberania é o templo de Preah Vihear, um grande complexo construído no topo de uma falésia de 525 metros que funciona como fronteira natural entre os dois países.
O Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) de Haia sentenciou em 1962 que o templo, declarado Património Mundial da UNESCO em 2008, se encontra em terreno cambojano.
Banguecoque acatou então a decisão, mas manteve a reivindicação sobre o terreno adjacente, já que a única via de acesso era através de estradas provenientes da Tailândia.
As fricções sobre estas reivindicações territoriais culminaram em conflitos em 2008 e em 2011, que provocaram mais de trinta mortos.
Phnom Penh recorreu novamente a Haia, que em 2013 lhe voltou a dar razão, e pediu novamente a intervenção do TIJ em junho.
Banguecoque rejeita recorrer à justiça internacional e prefere resolver o desacordo através de mecanismos bilaterais.
A disputa remonta ao acordo de março de 1907 entre o então reino do Sião, atual Tailândia, e a França, que ocupava o território que agora é o Camboja.
O acordo destinava-se a trocar o controlo de algumas regiões e estabelecer uma linha de fronteira entre as duas nações.
Contudo, segundo as autoridades tailandesas, a demarcação real da fronteira desviava-se do texto do tratado, incluindo o território em redor do templo de Preah Vihear.
A discórdia arrastou-se até à atualidade e tem provocado vários confrontos, exacerbados em momentos de debilidade política e económica, como é o caso atual.
O Governo tailandês tem sido alvo de críticas pela suposta falta de previsão nas inundações catastróficas que atingiram o sul do país, causando mais de 270 mortos.
O executivo minoritário é liderado pelo primeiro-ministro Anutin Charnvirakul, que se comprometeu a deixar o poder no final de janeiro para realizar eleições antecipadas.
O Governo do Camboja, com estabilidade fictícia após eliminar qualquer vestígio de oposição política desde 2018, viu a pressão internacional aumentar devido aos centros de burla 'online' que proliferam no país.
"O exército tailandês, que sempre foi um ator político influente, desfruta dos apelos patrióticos depois de décadas de alternância entre governos civis e militares", disse Pepinky à EFE.
"O relativamente novo líder Hun Manet no Camboja é licenciado pela [academia militar norte-americana] West Point e não permitirá desafios à soberania nacional", acrescentou.
