Um "druida" rebelde no centro da polémica do medicamento eficaz contra a Covid-19

Chama-se Didier Raoult o infeciologista francês mais polémico do Mundo nestes tempos de pandemia de Covid-19, inapelavelmente associado à hidroxicloroquina, cuja designação impronunciável para o comum dos mortais trepou às primeiras páginas dos jornais, graças à apaixonada discussão em torno do prometido "dom do céu", na expressão do presidente norte-americano, Donald Trump, o mais destacado propagandista do fármaco.
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Para apimentar o perfil, uns glosam o ar de "druida" que lhe dão os longos cabelos brancos; outros a pinta de roqueiro dos anos 60; outros vasculham polémicas passadas. Ele diz (diário "La Provence") que se está nas tintas para o que os outros pensam dele. "Não sou um "outsider", sou aquele que está mais à frente".
Em 16 de março, Raoult, de 68 anos, diretor do Instituto Hospitalo-Universitário de Marselha, especializado em doenças infeciosas, fez um anúncio extraordinário: acabara de mostrar que um coquetel que junta hidroxicloroquina (molécula derivada da cloroquina, usada para tratar a malária, o lúpus e outras doenças) com um antibiótico chamado azitromicina é eficaz para tratar doentes infetados pelo novo coronavírus.
Dois dias depois, a farmacêutica francesa Sanofi, que fabrica aquela molécula, anunciou que disponibilizaria imediatamente milhões de doses, com potencial para tratar 300 mil doentes.
Donald Trump (por sinal, com interesses financeiros na dita farmacêutica, tal como financiadores da sua campanha) cantou de imediato hossanas à descoberta.
A comunidade científica e as autoridades sanitárias refrearam os ânimos, avisando que nenhum estudo científico validado dá cobertura ao tratamento, ainda muito insuficientemente testado, embora se possa experimentar nos casos mais graves de Covid-19. E questionaram a metodologia de Raoult.
O estudo abrangeu apenas 24 pacientes, somente durante 15 dias e com incidentes pelos vistos discutíveis, como o desaparecimento de alguns doentes dos resultados finais - mortos, transferidos para cuidados intensivos ou saídos do hospital. Mesmo assim, o cientista declarou que 75% dos doentes estudados não apresentava sinais do vírus após seis dias de tratamento.
Muitos médicos e outros especialistas, os responsáveis de inúmeros hospitais e o Conselho Superior de Saúde franceses clamaram contra a curteza da amostra e os métodos controversos. De passagem, um detalhe sobre conflito de interesses: um dos médicos que participaram no estudo é o chefe de redação da revista científica que o publicou.
charlatão ou sábio?
Um charlatão ou um sábio provinciano desprezado pela clique parisiense? Meios como a Rádio France Inter e a France Info coligiram elogios que o levam aos píncaros: "um militante da ciência", "um grande médico com pensamento ético".
O último saiu da boca de um ex-ministro da Saúde (e Cultura e Negócios Estrangeiros), Philippe Douste-Blazy, de direita (UDF, atual Os Republicanos), o promotor de uma petição pela generalização da aplicação da hidroxicloroquina, que ultrapassa meio milhão de assinaturas.
Com posições polémicas, Raoult é conhecido como cético climático pelos leitores de "Le Figaro", "Le Point" e "Les Echos", onde publica artigos, e por afirmações como a de que o coronavírus "não justifica medidas como se fosse uma catástrofe atómica".
Anteontem, o presidente francês, Emmanuel Macron, foi ouvi-lo a Marselha, na ronda por cientistas antes de decidir manter ou aliviar medidas contra a pandemia. Diz que está a ultimar um estudo com mil doentes aos quais aplicou a polémica molécula. Nesse dia, o "Le Monde" noticiava problemas cardíacos sérios em pacientes que a receberam. Quatro morreram.
