Luís Carlos Machado está encostado a uma coluna da ala dois do aeroporto Charles de Gaulle em Paris, à espera de informação sobre quando poderá regressar ao Brasil. São seis da tarde e tudo o que sabe chega-lhe pelo telemóvel que não pára de tocar.
Conhecia uma das passageiras que estava no voo que nunca chegou a Paris. Era a colega de trabalho Deise Possamai, de 34 anos, funcionária pública da prefeitura de Criciúma, que viajava para fazer um curso em França. Vinha para a Europa estudar", diz Luís Carlos, funcionário público do Governo de Santa Catarina.
Fala sempre no passado porque, diz, ninguém tem "mais esperança". Nem a família, que já falou com uma rádio brasileira. "No Brasil a informação é bem clara", garante. Logo que aterrou, vindo de Itália, chegaram as notícias. Primeiro, que o avião tinha desaparecido no ar. Depois, que a colega estava naquele voo. "Foi a prima dela que me ligou", explica.
Segundo o brasileiro, que fazia escala em Paris, vindo de Itália e deveria ter regressado no avião que desapareceu, a Air France "não falou connosco directamente". Foi também por terceiros que ouviu que a companhia aérea francesa iria pôr à disposição um avião de maior capacidade para levar os passageiros que deveriam ter regressado ontem, mas também algumas famílias das vítimas.
No aeroporto Charles de Gaulle em Paris foi montada, ao fim da manhã de ontem, uma célula de crise com médicos e psicólogos para acolher as famílias dos passageiros que nunca chegaram. Do lado de fora da barreira de vidro foram-se amontoando jornalistas e curiosos à procura de alguém que falasse uma língua que pudessem entender. É entre grande confusão que presidente da França, Nicolas Sarkozy chega ao principal aeroporto francês. Entra sem ser visto para apresentar condolências às famílias das vítimas do "acidente trágico", o pior de sempre da companhia aérea francesa. No local já estavam o ministro e o secretário de Estado dos Transportes, Jean-Louis Borloo e Dominique Bussereau. Ontem à tarde, Sarkozy admitia como muito "pouco provável" ser encontrado alguém com vida e ao fim do dia telefonava a Lula da Silva o presidente brasileiro.
É por essa altura que se começa a ouvir a história de dois franceses que nunca embarcaram. Um casal de professores de Medicina fizeram de tudo para entrar no voo 447 da Air France, mas não conseguiram e ficaram mesmo no Rio de Janeiro.
A consul-geral do Brasil em França, Maria Celine Rodrigues, dizia, ao fim da tarde de ontem, que não se podia descartar qualquer hipótese por detrás do acidente, "nem mesmo a de terrorismo", enquanto não fosse encontrada a caixa negra do avião. A diplomata garantia que não tinha qualquer informação em seu poder que fizesse eliminar essa possibilidade.
A informação sobre o possível regresso ao Rio de Janeiro não chega e Luís Carlos está "inquieto e angustiado", mas diz que não tem medo de voar. "A vontade de regressar é mais forte".
