
A viver em Los Angeles, o ator brasileiro Wagner Moura admite medo de se deparar com agentes do ICE e fala sobre a polarização política nos EUA
Foto: Valerie Macon/AFP
Ator brasileiro nomeado para um Oscar revela receio de autoridades migratórias norte-americanas e traça paralelos com o Brasil. Redes sociais e extremismos preocupam Wagner Moura, que defende memória histórica e alerta para perigos da polarização.
O ator brasileiro Wagner Moura, indicado ao Oscar de Melhor Ator por "O Agente Secreto", falou em entrevista ao jornal espanhol "El País" sobre o seu receio face ao clima político nos Estados Unidos. A viver em Los Angeles com a mulher, a fotógrafa Sandra Delgado, e os três filhos, o artista admitiu sentir medo de se deparar com agentes do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega norte-americano.
"Estamos a atravessar um momento muito feio. Até eu tenho medo de me deparar com o ICE. Digo isto porque reajo de maneira explosiva quando vejo uma situação de injustiça ou de autoritarismo diante dos meus olhos. E agora não sei se conseguiria fazer isso, porque esses tipos podem matar, como vimos", afirmou, referindo-se a casos de morte de imigrantes durante detenções.
Wagner Moura destacou a situação de muitos latinos nos Estados Unidos, que se escondem em casa e evitam até levar os filhos à escola, e criticou a polarização política que observa no país. Para o intérprete, a radicalização atual tem ecos no Brasil: "É curioso como se repetem os mesmos padrões que ocorreram no Brasil. Demonizam atores, artistas, jornalistas e universidades. A extrema-direita transformou os artistas brasileiros em inimigos do povo, com discursos sobre dinheiro público e manipulação da verdade".
Entre medo e política
Wagner Moura aponta ainda que a influência das redes sociais amplificou a radicalização e dificultou a atuação de setores progressistas. "Há cerca de dez anos, no Brasil, fomos muito ingénuos. Pensávamos que o Facebook podia ser uma ferramenta de ligação, de mobilização das pessoas e de democratização da informação. Hoje é evidente a união entre os oligarcas da tecnologia e a extrema-direita. Nós, progressistas, perdemos espaço", frisou.
Em paralelo, traçou comparações entre líderes políticos brasileiros e norte-americanos, destacando semelhanças ideológicas entre Jair Bolsonaro e Donald Trump. Apesar das críticas a Bolsonaro, o ator elogiou a postura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, classificando-o de "politicamente astuto" na condução de pressões políticas internacionais recentes.
Em plena campanha pelo Oscar, Wagner Moura procura equilibrar a agenda profissional com a vida familiar. "É lindo, mas a realidade alcança-me quando chego a casa e os meus filhos estão à minha espera", confessou, revelando o lado humano de uma carreira marcada pelo cinema de impacto político.

